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A longa crise que levou o Fluminense à Série C

Há 20 anos, tricolor encerrava o primeiro turno da Segundona como lanterna no seu grupo.


Os anos 1990 não foram fáceis para o Fluminense. O gigante carioca – que na década anterior foi campeão brasileiro (1984) e tricampeão estadual (1983, 1984 e 1985) – viveu, na reta final do século XX, os piores momentos de sua história. Uma grave crise política e institucional começou a abalar o clube a partir de 1986, incluindo a venda de atletas a preço de banana sob protestos da torcida, como ocorreu com Branco e Ricardo Gomes, jogadores de seleção brasileira. O centroavante Assis, ídolo do clube, saiu de graça. Na época, até jornalistas eram barrados das Laranjeiras por noticiar as mazelas do clube. Sintomas muito comuns no futebol brasileiro. E dentro de campo, o time sofria: já em 1990, o tricolor carioca escapou da queda para a Segunda Divisão na penúltima rodada e com ajuda do rival Flamengo, que venceu a Inter de Limeira. O Flu de Romerito, Delei e Washington rapidamente parecia um passado muito distante. E a espiral negativa ainda duraria bastante, culminando no maior pesadelo do clube, em 1998.


Além de grandes jogadores, o Fluminense em pleno declínio também se livrou de jovens promessas; e sofreu por isso. Com um time formado por inúmeros ex-tricolores, o Bragantino foi campeão paulista em 1990 e eliminou o clube carioca nas semifinais do Brasileiro de 1991. Em 1993, o tricolor fez uma campanha digna de rebaixamento, ao lado de Botafogo e Atlético/MG, mas gracas ao regulamento – feito para pescar o Grêmio, 9º colocado da Série B do ano anterior – era impossível cair. Ainda haveria uma grande alegria, é claro, com o famoso gol de barriga de Renato Gaúcho em cima do Flamengo, nos últimos minutos da final, dando ao Flu o título estadual de 1995 após uma década de seca. Naquele ano, o time chegaria mais uma vez às semifinais da Série A, caindo diante do Santos. Com um título importante e uma boa campanha, podia parecer que a decadência havia passado e o Fluminense, após muito sofrimento, já tinha desviado das armadilhas. Mas o pior ainda estava por vir.


Nos dois anos seguintes, o clube foi atingido em cheio. Um rebaixamento cancelado e, depois, outro confirmado. Finalmente, o Fluminense disputou a Segunda Divisão em 1998. E sem vencer um jogo sequer até a metade da competição, estava sendo rebaixado novamente. Há exatos 20 anos, após empatar por 2 a 2 com o Joinville no Maracanã, o colapso enfim alcançou o clube: a ameaça da Série C era real. E iminente.


A campanha do Flu na Série A 1996 teve 23 jogos, com 6 vitórias, 4 empates e 13 derrotas. O time-base era: Léo; Paulo Roberto, Wágner, César, Alexandre Seixas; Charles Guerreiro, Cadu, Hugo (Tupãzinho), Rogerinho; Valdeir, Leonardo. Téc.: Renato Gaúcho.

A caminho do momento mais melancólico de sua existência, o Fluminense passou por quatro presidentes diferentes em 1996 – foram duas renúncias, um interino e um recém-eleito. A instabilidade administrativa era tal que, após três meses de salários atrasados, os jogadores do elenco fizeram uma pequena greve, se recusando a treinar por um dia. No Brasileiro daquele ano, o tricolor colecionou goleadas; 4 a 1 para o Criciúma, 5 a 1 para o Palmeiras, 6 a 0 para o Sport... Apenas alguns dos resultados que fizeram a defesa do Flu ser a pior do torneio, com 50 gols sofridos. E mesmo assim, o time chegou na última rodada com chances de se salvar. Precisava vencer o Vitória e secar Bahia e Criciúma. Venceu, mas os rivais também. Vice-lanterna da Série A, o tricolor caía pela primeira vez. Porém, com supostas tentativas de manipulação de resultados por Corinthians e Atlético/PR, reveladas já no meio de 1997, a CBF cancelou o descenso. O presidente Álvaro Barcelos, que havia assumido um clube rebaixado e se planejado para disputar a Segundona, protagonizou a cena infame: o estouro de champanhe comemorando a canetada de Ricardo Teixeira.


Álvaro Barcelos 1997 champanhe
A imagem do Fluminense até hoje paga caro por este momento. (Divulgação/Fluminense FC)

A queda de divisão do Fluminense pode não ter se concretizado, mas a queda geral do clube, em termos políticos, institucionais e de reputação, não parecia ter fim. Após a virada de mesa e sob promessas, por parte da diretoria, de um time que poderia disputar o título, a enorme torcida tricolor testemunhou mais um Brasileiro que foi para a lista de vexames recentes da equipe. O roteiro era repetido. Muitas goleadas, como os 4 a 1 para Palmeiras e Internacional, além dos 3 a 0 para o Sport. O Flu simplesmente não conseguia ganhar; só foi vencer sua primeira partida na 13ª rodada da competição. E mais uma vez, como que carregado pela camisa, conseguiu respirar na reta final, com quatro jogos de invencibilidade. Após bater o Criciúma no Maracanã, era a hora de torcer: para o tricolor se manter com chances, Corinthians e Guarani não podiam ganhar. Porém, como no ano anterior, os adversários fizeram a sua parte. E com uma rodada de antecedência, o Fluminense estava rebaixado novamente. Desta vez, jogaria a Série B.


A campanha do Flu na Série A 1997 teve 25 jogos, com 4 vitórias, 10 empates e 11 derrotas. O time-base era: Fábio Noronha; Paulo César, Lima, César, Jorge Luís; Cadu, Dirceu, Nildo, Yan (Roger); Roni, Paulinho McLaren. Téc.: Arturzinho.

Seria impossível relembrar a campanha que levou um gigante como o Fluminense para a Terceira (e então última) Divisão sem resgatar o período longo e doloroso que, inevitavelmente, pavimentou o caminho da derrocada. Entretanto, o retrospecto na Série B foi, sem dúvida, o ápice de toda a crise que vinha se agravando desde 1986. E ainda assim, era difícil de acreditar. Os jogos passavam, o tricolor não conseguia uma mísera vitória, mas ainda havia a crença de que, mais cedo ou mais tarde, iria se recuperar e conquistar o acesso. Foi a noite de 27 de agosto de 1998 que tratou de expor, de uma vez por todas, o tamanho da ruína tricolor.


Semanas antes da partida contra o Joinville, o infame presidente Álvaro Barcelos não aguentou o início ruim na Série B e renunciou. O clube estava, de uma vez por todas, se incendiando por dentro. E os jogadores já entraram muito pressionados naquela quinta-feira. Não apenas eram lanternas do Grupo D após quatro rodadas como, na véspera, o grande rival Vasco havia conquistado a Libertadores e vivia o apogeu de sua história – enquanto o Flu agonizava. As cerca de seis mil pessoas que compareceram ao Maracanã, entretanto, não se importavam com a festa cruzmaltina na cidade; queriam fazer uma festa tricolor e estavam dispostas a apoiar o time rumo à primeira vitória. O adversário era líder do grupo, com nove pontos, enquanto o Fluminense tinha apenas dois. Pois foi o Flu que ficou à frente do placar, duas vezes, com gols de Sidney e Sérgio Alves. Porém, nas duas ocasiões, cedeu o empate menos de dez minutos depois, com direito a pênalti infantil cometido por Roger. 2 a 2. Chegava ao fim a primeira metade da Série B de 1998, e o tricolor carioca estava na lanterna e caindo para a Terceirona.


A campanha do Flu na Série B 1998 teve 10 jogos, com 2 vitórias, 5 empates e 3 derrotas. O time-base era: Ronaldo; Flávio, Adílson Pinto, Adriano (Júnior), Nonato; Júlio César, Sidney, Roger (Branco), Carlos Alberto Dias; Roni, Magno Alves. Téc.: Sérgio Cosme.

Nos jogos de volta, o time tentou reagir como podia. Conseguiu sair da última posição no grupo D e chegou a vencer duas partidas, contra o Juventus e o próprio Joinville, mas não adiantou. Naquele ano, os lanternas dos quatro grupos caíam, ao lado dos dois piores vice-lanternas. E foi o caso do Fluminense. Cerca de 40 dias depois do empate em casa que escancarou de vez o esfacelamento do clube, o time empatou de novo, dessa vez com o ABC, em Natal, por 1 a 1. Foi o último jogo do tricolor em sua primeira e, até hoje, única participação na Segunda Divisão. Participação infeliz que levou uma instituição gigante ao momento mais obscuro de sua história. O presidente dizia que era “impossível o Fluminense jogar um campeonato da terceira divisão”. O ídolo Branco, recontratado na reta final para salvar o Flu, clamava que “alguma coisa tem que se fazer”. Porém, após aquele vexame inédito, o caminho para a reconstrução do tricolor carioca passaria, inevitavelmente, pela Série C.


E assim foi, a partir de 1999. Mas essa é outra parte da história...

 

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