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Antes da seca, Santos venceu Paulista inesquecível

Há 35 anos, goleirão ajudou o Peixe a levantar taça, o que só se repetiria 22 anos depois.

Quando um adolescente chamado Édson Arantes do Nascimento chegou ao Santos Futebol Clube, a equipe praiana tinha apenas três títulos do Campeonato Paulista. Os rivais tinham 15 (Corinthians), 12 (Palmeiras) e 8 (São Paulo). Mais eloquente ainda é o fato de que a agremiação é a segunda mais velha do quarteto. O Tricolor, por exemplo, foi fundado em 1930, enquanto a equipe litorânea se estabeleceu em 1912. Na época, o torneio estadual era, muitas vezes, o mais importante disputado pelos times. Em 1958, é claro, Pelé liderou uma campanha histórica, com 58 dos incríveis 155 gols que o alvinegro marcou em 41 jogos. O resto é história, pois o menino prodígio foi à Copa naquele mesmo ano e encantou o Mundo. Nas 15 edições seguintes do Paulista, o Santos levantou a taça nove vezes. No entanto, em 1974, Pelé deixou o cotidiano do clube. Ninguém sabia, mas nos 33 anos posteriores, a equipe venceria apenas dois estaduais.


Ainda com time forte, mas desestruturado, o Peixe levou o Paulista de 1978, um dos mais longos e arrastados da história. Após três turnos e 47 partidas, o alvinegro praiano foi campeão em cima do rival São Paulo, com destaque absoluto para o artilheiro Juary. No ano anterior, em amistoso entre Cosmos e Santos, Pelé havia se aposentado definitivamente. A verdadeira e prolongada má fase do clube no estadual, entretanto, ainda não começara de fato. Uma seca de seis anos sem título, como a que veio a seguir, foi curtinha perto do que o Peixe ainda iria viver. Serginho Chulapa, vice com o Tricolor em 1978, estava do lado oposto em 1984. O formato do Paulista era idêntico ao da Série A atual. Vinte clubes que se enfrentam em ida e volta, o maior pontuador é campeão. E foi o Santos. O último título antes de uma dolorosa seca de 22 anos. E em 14 de julho de 1984, há exatos 35 anos, o time vencia o América/SP a caminho da sofrida taça.


Serginho Chulapa corre para celebrar: por muito tempo, esta foi a única imagem de título paulista na memória dos santistas. (Divulgação/Santos FC)

O triunfo diante da tradicional equipe de São José do Rio Preto foi o terceiro na sequência de cinco vitórias consecutivas que abriram a campanha santista. E principalmente, ficou marcado na história do futebol como uma das maiores apresentações de um goleiro. O uruguaio Rodolfo Rodríguez, paredão santista, salvou a equipe em cinco lances milagrosos seguidos. Anos depois, ele seria o primeiro a ganhar uma placa por suas defesas. Nem mesmo os atacantes do rival acreditavam. Tarcísio, do América/SP, chegou a dizer que "Rodolfo era maior que o gol". Era mesmo. Se aquele Santos não tinha um ataque espetacular, contava não apenas com um ótimo sistema defensivo como tinha um milagreiro debaixo das traves. De cara, foram 15 jogos de invencibilidade, quase toda a primeira metade do campeonato, até uma derrota dura em clássico: 4 a 1 justamente para o São Paulo, ex-clube do artilheiro Serginho. E que artilheiro.


Com 16 gols, Chulapa foi o goleador do estadual – ao lado de Chiquinho, do Botafogo/SP. Era o destaque ofensivo de um time marcado pela aplicação tática, garra e consistência defensiva. O xerifão Márcio, na zaga, e o volantão Dema, no meio, são alguns dos mais lembrados daquela conquista, com muito carinho, pela torcida do Peixe. Houve instabilidade, é claro. Toda a história de sucesso envolve superação. Após a derrota para o Tricolor, os comandados do técnico Carlos Castilho (histórico goleiro do Fluminense) chegaram a passar seis jogos sem vencer, incluindo novo revés ante o Santo André. Duas derrotas em 21 partidas seguia longe de ser ruim. O Corinthians, no entanto, foi um rival que valorizou o título santista. São Paulo e Palmeiras também não desistiam. Rei das vitórias magras naquele ano, o time se reencontrou com os triunfos por 1 a 0 diante da Portuguesa e da Ferroviária, antes de perder novamente.


A campanha do Peixe no Paulista 1984 teve 38 jogos. Foram 22 vitórias, 13 empates e 3 derrotas, com 54 gols marcados e 19 sofridos. O time-base era: Rodolfo Rodríguez; Chiquinho, Márcio, Toninho Carlos, Toninho Oliveira; Dema, Humberto, Paulo Isidoro, Lino; Serginho, Zé Sérgio. Téc.: Carlos Castilho.

Contra um forte Guarani, veio o terceiro revés da competição. E seria o último. Se o time havia aberto o Campeonato Paulista com 15 jogos de invencibilidade, era hora de encerrar com sequência parecida. Em 14 jogos, 9 vitórias e 5 empates. Além disso, o primeiro triunfo em clássicos naquela campanha: 2 a 0 sobre o Palmeiras. E o título, é claro, tinha que vir em jogo grande. E tinha que ser em vitória por 1 a 0, simbolizando aquela equipe. E tinha que ser com gol de Serginho Chulapa. Na última rodada, contra o Corinthians, simples empate era suficiente e deixava o Peixe com a taça. Em partidaça de Humberto, no entanto, o time venceu. E para muitos, o Timão chegava na partida como favorito. Também dependia só de si, era campeão com um triunfo. Mas aquele título só podia ser do Santos. Era a 15ª taça de campeão paulista do alvinegro, encerrando jejum. E era também a última por muito tempo. O novo jejum durou mais de duas décadas.


O Peixe evitou o tri seguido do Corinthians, de quebra voltou a ser campeão e consolidou a melhor defesa do campeonato. Mais de 110 mil pessoas estavam no Morumbi para ver a conquista santista. A festa, é claro, teve suas consequências. O alvinegro praiano estava afundado em dívidas, na casa dos bilhões de cruzeiros. A premiação pelo título foi importante, para sanar alguns débitos, mas a situação do Santos era preocupante. O jejum que veio a seguir – que só seria quebrado em 2006 por time de poucas estrelas, mas bem montado por Vanderlei Luxemburgo – não foi coincidência. Até mesmo Pelé era um dos credores do clube, tendo emprestado dinheiro para a contratação justamente de Rodolfo Rodríguez. O goleiro, mago naquela partida há exatos 35 anos, em 14 de julho de 1984, foi um dos principais motivos da conquista. Pelos 22 anos seguintes, o torcedor santista teve que se contentar com a lembrança. Mas que doce lembrança.

 

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