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Apaixonadamente celeste

Em meio a uma Copa América, romance e futebol se misturam em conto de autora paraense.


A jornalista brasileira Letícia Nobre estava à beira do gramado pela primeira vez. Encantada com a emoção pulsando do estádio, tensa por não saber bem o que deveria fazer e apaixonada por um certo zagueiro uruguaio. Mario Cesar Blanco, el general, o capitão da Celeste. Era a decisão da Copa América. Uruguai e Paraguai disputavam o título em território argentino. O palco? Monumental de Núñez, o octogenário estádio do River Plate, em Buenos Aires.


Alguns dias antes, Letícia acordava num hotel a mais de 1.000 quilômetros dali, em Mendoza, outra cidade do país de Messi. Até então ela não era exatamente jornalista esportiva. Com equipe paralela à do departamento de esportes, cobria o lado extra-campo da competição, a paixão da torcida argentina. Mas, ao descer no elevador, Letícia errou o andar do café da manhã e sua vida começou a mudar.


No conto Monumental ou "uruguaio no corredor", a escritora paraense Bruna Guerreiro leva o leitor para dentro do jogo de flerte e paixão envolvendo Letícia e Blanco, que atravessa a Copa América, do elevador do hotel de Mendoza à final no Monumental de Núñez. "¿Qué piso?" Juntos, os dois sobem até um lugar desconhecido: ela desviando os rumos do casamento e da carreira profissional, ele seguindo os caminhos que levavam à taça. "Me traes suerte, Letícia…".


O conto em edição separada. (Divulgação)

Bruna é minha parente, o sobrenome logo entrega. Como isso aqui é boteco e não governo, a prosa familiar está liberada. Ela tem 16 livros publicados, fora as participações em obras coletivas. Monumental está entre os textos do projeto Oníricos, uma série de histórias que, antes de serem escritas, apareceram para Bruna em sonhos. O Onírico 6, sobre Letícia e Blanco, está publicado tanto em edição separada quanto na segunda edição da antologia que reúne parte dos Oníricos.


A escrita da autora é embalada por música. E seus livros vêm com indicações do que ouvir a cada momento da narrativa. Em Monumental, a banda brasileira Pato Fu e a mexicana Maná são as mais frequentes na playlist do encontro entre as duas almas e as duas línguas do casal protagonista. Mas o universo do futebol também é música para Bruna. Além do Onírico 6, o mundo da bola aparece em outro livro dela, Desfecho.


O site de Bruna entrega a relação entre a escritora e o futebol: "Começou a escrever seu primeiro romance em 1998, depois que o Brasil perdeu a final da Copa da França, mas precisou de muitas Copas para transformar sua vida de historiadora na vida de uma contadora de histórias". O primeiro livro dela só foi publicado em 2013. Desde então, Bruna não para de jogar histórias no mundo.


A autora. (Divulgação)

Monumental saiu em 2015, durante a Copa América daquele ano. O conto remete, todavia, à edição de 2011, de fato realizada na Argentina. Como na ficção, a final da 43ª Copa América foi entre Uruguai e Paraguai, no Monumental de Núñez. Já o capitão da Celeste, na época, não era Mario Cesar Blanco, mas Diego Lugano. Ou será que Blanco é Lugano? Bruna costuma pensar na fisionomia de pessoas reais para seus personagens.


Letícia é uma mulher morena de cabelos escuros e crespos. Esses traços de negritude, embora pontuais no texto, tateiam um deslocamento nos protagonismos que vem sendo reivindicado tanto na literatura quanto no jornalismo esportivo. A recente fala-manifesto do técnico do Bahia, Roger Machado, levantou a bola: "(...) quantas mulheres negras têm comentando esporte?". Na televisão, é raro ver. Na literatura, o final de Monumental indica que Letícia seguiria por esse caminho. Um a zero para a ficção.


Vista aérea do Monumental de Núñez, um dos cenários do conto. (José Porras/Creative Commons)

Das criaturas à criadora. Bruna Guerreiro resolveu tabelar com um tema sobre o qual são os homens que costumam ter a palavra. Torcedora do Paysandu, time paraense azul celeste como o Uruguai, ela toma para si um lugar que também é seu por direito, como mulher apaixonada por futebol, de fazer arte com a bola quicando sobre as teclas. E Bruna conduz o jogo de um jeito próprio, com leveza e romantismo.


Em Monumental, aparecem ainda críticas a certo jornalismo esportivo, meio infantiloide, que se lambuza de entretenimento. A narradora faz troça do jeitão de Ricardo, que na final era o repórter responsável por cobrir a seleção uruguaia. "Era daqueles que ficava plantado de costas pro gol com a câmera apontada pra ele tentando fazer um texto bem ridículo no instantinho em que a bola entra." Lembra alguém?


A Argentina será novamente sede da Copa América do ano que vem, em dobradinha com a Colômbia. Dessa vez, o Monumental de Núñez não está entre os palcos escolhidos. Nem o Cemitério de Elefantes, estádio do Colón, em Santa Fé. Foi lá que Letícia viu Blanco, quer dizer, o Uruguai pelejar contra a Argentina, no clássico do rio da Prata. "O futebol era a força comum, como um único sangue que fizesse palpitar aqueles corações desencontrados." É sobre futebol, mas também sobre paixão.

 

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