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As distorções no formato do Paulistão e do Parazão

Torneios fazem grupos para disputar a classificação na tabela, mas não no campo.


A diminuição de datas disponíveis para os campeonatos estaduais no Brasil tem sido lenta e gradual, mas inescapável. O ano não aumenta de tamanho, mas a Copa do Brasil só cresce, as competições continentais também, e o calendário inevitavelmente precisa se adequar, já que sempre há clubes, no topo da pirâmide, que disputam todos os torneios possíveis. Com cada vez mais jogos, também é necessário cada vez mais tempo de pré-temporada. O calendário obviamente não é pensado para os times de menor escalão, portanto quem paga o pato são os estaduais. Por outro lado, muito do atrativo, inclusive para as agremiações de menor investimento, está justamente em jogar contra os gigantes. A equação é de difícil solução, sem dúvida. Não parece ser simples como só retirar os grandes dos estaduais ou desmembrá-los pela temporada inteira. Em busca de soluções, os torneios têm tido, digamos, formatos "criativos". E muitas vezes, situações inusitadas ocorrem.


Neste momento, nos campeonatos Paulista e Paraense – apenas para tomar como exemplo as duas "sedes" do NesF – há equipes sendo eliminadas com mais pontos do que times que, por enquanto, garantem vaga na próxima fase. Em tese, uma condição normal de qualquer torneio separado por grupos, certo? Na Liga dos Campeões atual, por exemplo, o Napoli ficou na terceira posição de sua chave com 9 pontos, "caindo" para a Liga Europa, enquanto o Tottenham se classificou para as oitavas de final (e estará nas quartas, após eliminar o Borussia Dortmund) com 8 pontos. A diferença, é claro, está no tamanho da disparidade e na forma como ela é construída. Confrontos dentro de um mesmo grupo colocam as equipes para disputar entre si tanto no campo, quanto na tabela. Não é o caso dos estaduais do Pará e de São Paulo, em que os times jogam contra o(s) outro(s) grupo(s), mesmo lutando entre si pela classificação.


Em reunião com os clubes, no fim de 2016, a Federação Paraense de Futebol expôs o formato atual do Paraense, que, com as devidas proporções, se assemelha ao do Paulista. (Divulgação/FPF-PA)

O formato atual do Campeonato Paraense, vigente desde 2017, já fez com que um dos grupos somasse 77 pontos, enquanto o outro, apenas 59. Neste ano, por enquanto, o Águia garante vaga nas semifinais com 9 pontos conquistados, enquanto o Paragominas é eliminado com 12. No caso do Paulista, o regulamento, com pequenas mudanças (em especial com relação ao rebaixamento e ao tamanho dos grupos), data de 2014. O novo formato veio justamente no esteio dos protestos do Bom Senso FC, que pedia maior pré-temporada e menor carga de jogos – até 2013, o estadual de São Paulo era um dos mais inchados, com mínimo de 19 jogos para todos os participantes e máximo de 22 para os finalistas. Assim, chegou-se à divisão por grupos que, internamente, disputam a classificação, mas não se enfrentam. E desde então, a tabela do torneio virou uma coleção inusitada, digna de ser tratada no futuro, quem sabe, como uma anomalia.


Já em 2014, por exemplo, Corinthians (24 pontos), São Bernardo e Audax (23), Portuguesa e Rio Claro (20), até mesmo o XV de Piracicaba (19, mas com saldo melhor) foram todos preteridos em prol do Penapolense, que foi para o mata-mata com 19 pontos – e ainda eliminou o São Paulo, nas quartas de final. Não foi o único caso, é claro. Aqui, é importante ressaltar que nenhuma dessas equipes é vítima de nada, uma vez que todas assinam o regulamento e concordam com ele. O que ocorre com um time em um ano, favoravelmente, pode ser exatamente o que o elimina no próximo. E também não é fácil encontrar o regulamento ideal. O problema é que, para formatos que foram repensados muito recentemente, os estaduais de São Paulo e do Pará apresentam problema óbvio demais, que deveria ter sido considerado. Neste momento, a Ponte Preta está virtualmente eliminada do Paulista 2019 com a quarta melhor campanha, enquanto o Oeste, com a quarta pior, luta pela classificação.


Enquanto o formato atual do Paulista teve chaves de cinco clubes, a diferença de pontuação já chegou a 40 pontos: em 2016, um grupo fez 124, outro coletou 84. Com chaves de quatro equipes, a distância alcançou 24 pontos: em 2018, um grupo somou 76, outro, apenas 52.

Para ilustrar o argumento, o XV de Piracicaba, um dos eliminados em 2014, foi ao mata-mata em 2015 beneficiado pela regra. Coletou 18 pontos, enquanto Mogi Mirim e Ituano (20), São Bento (21) e Audax (22) ficaram pelo caminho. Em 2017, Mirassol e Novorizontino tiveram campanhas quase idênticas, com 15 pontos conquistados, mas o Leão tinha saldo melhor que o do Tigre. Passou a equipe de Novo Horizonte. No ano passado, foi a vez do São Bento ser preterido pelo Bragantino, apesar dos mesmos 17 pontos e maior saldo de gols. Conforme os anos passam, os exemplos vão se acumulando. Apenas no ano de 2016 se classificaram para a segunda fase do Paulista, realmente, as equipes de melhor desempenho. É difícil que o fracasso do formato fique mais claro do que isso. Se não há como (nem porque) retornar ao que era antes, as circunstâncias atuais também estão muito longe do aceitável. Não do ideal, pois ele é impossível. Do aceitável mesmo.


O Campeonato Paraense, por ter apenas dois grupos e adesão mais recente, tem menos casos do tipo. Ainda bem. Mas, teoricamente, é possível que um classificado às semifinais tenha campanha de rebaixado, na classificação geral. Entretanto, o rebaixamento, pelo menos, é decretado para os últimos de cada grupo. No Paulista, é muito pior: enquanto a tabela geral não é usada para a qualificação ao mata-mata, ela é acionada para a decisão do rebaixamento. Ou seja, um clube poderia disputar o título mesmo estando rebaixado, em tese, já que tipos diferentes de classificação são utilizadas para cada extremo da tabela. A probabilidade disso acontecer diminuiu desde 2017, quando passaram a cair apenas dois clubes – em 2014 e 2015, foram quatro, enquanto em 2016, foram seis –, mas tecnicamente é possível. O formato, enfim, é um poço sem fundo de possíveis anomalias. Se na teoria é horrível, na prática já se mostrou, também, insuficiente.

 

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