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As pedras no caminho fizeram o hexa do Flamengo

Há dez anos, rubro-negro viveu série de derrotas que moldou um time histórico e campeão.

Sete vitórias, seis empates e seis derrotas. Em 19 jogos, o ataque faz 28 gols e a defesa sofre 31. A definição quase perfeita de mediocridade. Olhando para os números, parece a descrição de um time às vésperas do rebaixamento. Não é. Este era o Clube de Regatas do Flamengo durante a Série A do Campeonato Brasileiro, em 2009. Na última partida do primeiro turno, o rubro-negro havia tomado um sarrafo de 4 a 1 do Grêmio. Conhecendo a história, é fácil ver o tamanho da reviravolta: menos de quatro meses depois, o Mengão viraria jogo incrível diante do mesmo rival, no Maracanã lotado, para ser hexacampeão brasileiro em uma das maiores recuperações já vistas no campeonato. Porém, naquele momento, em meados de agosto, parecia impossível. Quem tinha que apostar em uma das equipes, aliás, talvez apostasse justamente no Grêmio, que estava em ascensão. O Flamengo parecia afundado em crise generalizada e sem fim.


O técnico Andrade era contestado, o goleiro Bruno estava em má fase e o centroavante Adriano não conseguia resolver sozinho. Ao fim do primeiro turno, o Fla era o 10° colocado. Mas a arrancada só teve início depois de um pouco mais de sofrimento para a maior torcida do país. Foram apenas três derrotas no segundo turno inteiro, mas duas vieram logo na sequência da goleada contra o tricolor gaúcho. Diante do Avaí, por exemplo, 3 a 0. Era um revés que, fosse a campanha malsucedida, seria destacado negativamente. O futuro hexa já tinha levado um 5 a 0 do Coritiba, perdido para Sport e Goiás, além de deixar para trás pontos preciosos contra Grêmio Barueri e Náutico. Nada indicava a virada absurda. Há exatos dez anos, em 20 de agosto de 2009, o rubro-negro perdia em casa para o Cruzeiro, de virada, por 2 a 1. Quinta derrota consecutiva para o rival, que vinha mal das pernas. O Mengão era 12°. Pensar em título era loucura.


No fundo, Victor reclama, mas o que importa é que Ronaldo Angelim comemora: o Flamengo foi hexa de maneira completamente maluca, 17 anos depois do penta. (Reprodução/CR Flamengo)

O Cruzeiro foi o primeiro adversário do segundo turno, ainda antes do revés acachapante contra o Avaí. De repente, a realidade era a 14ª posição e, eventualmente, até mesmo uma luta para não cair, como ocorria com os rivais Fluminense e Botafogo. O Palmeiras voava na liderança. A recuperação flamenguista começou, efetivamente, a partir da 22ª rodada. Sem Adriano, servindo a seleção, quem brilhou foi Dejan Petković. Àquela altura, era uma rara chance como titular para um veterano de 36 anos que havia voltado ao clube na reta final do Campeonato Carioca. O motivo: a altíssima dívida trabalhista do Flamengo com o meia sérvio, que beirava os 18 milhões de reais. Não, o craque não fora contratado por motivos técnicos. Como muitos detalhes na história daquele time inesquecível, não havia nenhuma expectativa de glórias com Petković. Mas foi ele que liderou importante triunfo sobre o velho algoz Santo André, por 3 a 0.


A vitória iniciou uma nova sequência. Essa sim, sequência de campeão. Aqueles números medíocres do fim do primeiro turno começaram, aos poucos, a dar espaço para um caminho inesperado. Em 17 jogos, foram 12 vitórias, 4 empates e 1 derrota, para aproveitamento incrível de 78,4%. Antes frágil, a defesa simplesmente parou de sofrer gols. Foram só oito, sendo cinco deles em apenas dois jogos, um 3 a 3 contra o Vitória e a única derrota, por 2 a 0 para o Grêmio Barueri. Em 12 das 17 partidas, o Mengão saiu sem deixar o adversário balançar as redes, incluindo seis jogos seguidos que tiveram início justamente diante do Santo André. Outras duas vitórias pesadas, também por 3 a 0, marcaram o começo da reviravolta: Sport e Coritiba sentiram a vingança rubro-negra, após derrotas doídas no primeiro turno. Porém, vencer com tamanha tranquilidade não era a marca daquela equipe. Os jogos eram difíceis e sofridos, como o título seria.


A campanha do Mengo no Brasileiro 2009 teve 38 jogos. Foram 19 vitórias, 10 empates e 9 derrotas, com 58 gols marcados e 44 sofridos. O time-base era: Bruno; Léo Moura, Álvaro, Ronaldo Angelim, Juan; Maldonado, Airton, Willians (Kleberson), Petković (Toró); Zé Roberto, Adriano. Téc.: Andrade.

Clássicos contra Botafogo e Fluminense, confrontos diretos (que à altura não pareciam tão diretos assim) diante de São Paulo, Palmeiras e Atlético/MG... Todos foram caindo aos pés do Flamengo. Só quem vinha em toada parecida era justamente o Cruzeiro, rival da derrota há exatos dez anos. O primeiro turno celeste, entretanto, tinha sido pior que apenas medíocre, como o rubro-negro fora: o time mineiro chegou a se preocupar seriamente com a zona de rebaixamento. Por mais maluca que a Série A de 2009 tenha sido, não foi o suficiente para permitir o título ao Cruzeiro. Ficou reservado para o time do eterno goleiro Fábio a responsabilidade de tirar o Palmeiras, em queda livre, da zona de classificados à Libertadores. A história do título do Mengão, afinal, é indissociável da história de um Verdão que demitiu Vanderlei Luxemburgo, contratou Muricy Ramalho e, sofrendo com lesões e desempenho, perdeu 8 jogos no segundo turno.


Não foi só o Palmeiras, é claro. O Internacional perdeu 7 partidas no segundo turno e o São Paulo, que liderou no fim e chegou muito perto do hepta e do inédito tetra consecutivo, foi derrotado em viradas incríveis por Botafogo (3 a 2) e Goiás (4 a 2), na antepenúltima e penúltima rodadas, respectivamente. E enquanto isso tudo acontecia, o Flamengo seguia firme e forte em sua sequência magnífica, apoiado pela torcida mais assídua e numerosa do Brasil. Cinco dos dez maiores públicos do campeonato foram do Mengão já a partir de outubro, na reta decisiva. O campeão com menor aproveitamento da era dos pontos corridos, sim, mas o campeão da arrancada mais impressionante do mesmo período. Não teve o melhor ataque. Não teve a melhor defesa. Mas teve um Adriano artilheiro, um Petković brilhante, um Léo Moura incansável, um Juan consistente e um Ronaldo Angelim iluminado. O hexa estava na cabeça.

 

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