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Clima e futebol: o calendário entre Brasil e Europa

Técnico europeu quer inversão e alguns brasileiros clamam por ajustes: e a questão climática?


Repercutiu nesta semana, no mundo e no Brasil, a declaração de André Villas-Boas, treinador do Olympique de Marselha, sobre eventual mudança de calendário na Europa. Para ele, a paralisação pela pandemia do novo coronavírus permitiria ao continente se adequar à necessidade há muito imposta: a Copa de 2022, que será no inverno europeu, não no verão. O cronograma, portanto, sofreria agora – como já está sofrendo – para não sofrer depois. Por outro lado, seria uma forma de manter ativos todos os contratos atuais, já que os campeonatos seguiriam normalmente, tanto desta quanto das próximas temporadas; adiamentos são negociáveis, enquanto cancelamentos, muitas vezes, não são. Ou seja, talvez nem seja exatamente um sofrimento, embora também não pareça uma salvação. O calendário do futebol, afinal, é menos arbitrário do que muitos pensam, uma vez que ele tem um norte muito claro: o clima.


Parece óbvio, mas para muitos não é, especialmente considerando a realidade tropical de boa parte do Brasil: quase todo o futebol europeu para no verão por conta do calor, retornando à ativa no período do ano em que o clima ameniza. É o motivo, por exemplo, dos calendários diferentes e mais apertados em países com invernos rigorosos, que demandam longa parada no fim do ano, como Suécia, Finlândia, Noruega, Islândia e muitos outros. Isso para não falar da intertemporada de inverno na Alemanha, que dura quase um mês e é a mais longa entre as grandes ligas – algumas sequer tem uma segunda parada mais curta, caso da Inglaterra. O desejo que alguns têm por um futebol mapeável em planilha de Excel parece esquecer das questões climáticas, ao pensar em um calendário global, algo impossível. O que não significa, no entanto, que não possa haver respostas, para ambos os hemisférios, no exemplo do outro.


André Villas-Boas, durante evento em 2018: técnico foi o principal proponente de um calendário modificado na Europa. (Diarmuid Greene/Web Summit)

O Campeonato Brasileiro por pontos corridos e com 20 clubes, por exemplo, vigente desde 2006, é um sucesso. Na Europa, o formato já era padrão mais de uma década antes, e nada tinha a ver com clima, mas com algo que, aí sim, é o mesmo para o mundo inteiro: o "tamanho" do ano. Uma vez estabelecido que o formato mais justo de uma liga nacional era que todos jogassem contra todos em ida e volta, ficou claro que 38 rodadas era o ideal para as 52 semanas do ano, com férias, outras competições, pré-temporada, etc., pelo menos no caso das divisões principais. Ou seja, com análise e compreensão, é completamente possível adaptar ideias do outro lado do planeta. Em 2020, o Brasil tem um campeonato que não começou, o que ajuda – mas pode trazer dificuldades financeiras. No caso da Europa, dificilmente haverá uma solução que não seja drástica, por conta dos torneios terem sido paralisados ainda recheados de indefinições.


Para alguns, o Brasil devia se adaptar à Europa, fazendo uma parada grande de "inverno" por conta do verão rigoroso. Entretanto, dividir as temporadas no fim do outono e perder parte do inverno não é feito nem na Europa, onde o clima é mais ameno. Em um país majoritariamente tropical, soa como desperdício de calendário e sacrificaria os atletas.

A ideia de André Villas-Boas não é perfeita, mas merece no mínimo consideração – se não para ser aplicada, para uma reflexão importante sobre o momento que o futebol vive. Talvez seja dificílimo adequar o calendário europeu a um ano corrido, até por conta da Eurocopa 2021, mas o argumento faz sentido: talvez seja melhor fazer logo toda e qualquer adaptação necessária agora, do que deixar para depois. Havendo contratos televisivos e de publicidade, por exemplo, para mais dois torneios, que sejam garantidos mais dois torneios, usando os ajustes que forem precisos, como nos contratos com os jogadores e no apoio institucional aos clubes. Paradas diferentes e cronogramas provisórios, como o do técnico português, precisam ser considerados. E no caso da Europa, isso inclui jogar no verão, nem que seja por um tempo. Com tantos adiamentos, o ano de 2021 já promete ser o mais inchado da história do esporte. Sem ajustes, será pior para todos.

 

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