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Contratos bilionários e as finanças do beisebol

Entenda como, até em período de decadência, MLB investe cifras exorbitantes em atletas.


Imagine um dia acordar e saber que você tem um bilhão de reais na sua conta bancária. O sonho inalcançável para boa parte da população mundial é a realidade de alguns atletas ao fim deste mês de março. Mas não de um jogador de futebol ou de uma estrela da NBA, nem mesmo do novo contrato de Tom Brady. Não, as cifras de dez dígitos estão na Major League Baseball. O terceiro esporte mais popular dos Estados unidos está acima até mesmo do futebol com os pés no quesito contratos exorbitantes. Mas o que faz com que isso ocorra em frequência tão alta na MLB?


Ao final deste mês, a liga terá movimentado cerca de 4,128 bilhões de reais. O mais impressionante deste número é que ele se referem apenas a três atletas profissionais. O maior contrato pertence a Mike Trout, que renovou com o Los Angeles Angels. Trout ficaria sem vínculo na temporada de 2020 e fechou um acordo com os Angels por singelos 426 milhões de dólares durante 12 anos. Não somente está com emprego garantido até 2031, como arrebata cerca de 1,667 bilhão de reais – com o dólar na casa dos R$3,91 no dia do fechamento deste texto.


O contrato de Trout foi o primeiro na casa dos 400 milhões da MLB, mas se tornou o terceiro recorde quebrado seguido em apenas um mês. Os outros números assustadores não vieram de renovações, mas de contratações, como Many Machado, que saiu do Los Angeles Dodgers para o San Diego Padres por 300 milhões de dólares (1,173 bilhão de reais) e um contrato de 10 anos. Machado quebrou o recorde de um contrato no mercado de jogadores desvinculados, mas viu sua marca durar pouco, já que menos de um mês depois, o Philadelphia Phillies contrataria Bryce Harper.


Desta vez, 330 milhões de dólares (1,290 bilhão de reais) por 13 anos foi o que Philadelphia ofereceu a Harper para ele deixar o Washington Nationals, quebrando mais uma vez o recorde de quantia despejada em apenas um jogador. Isso pode dar a ideia de que os números são comuns para a liga, mas não se engane, apesar de ser financeiramente inflada, a MLB não via um contrato acima das três centenas de milhões desde 2014, quando o Miami Marlins estendeu o vínculo de Giancarlo Stanton por 13 anos e 325 milhões de dólares (1,270 bilhão de reais).


A quantidade de dinheiro movimentada no intervalo de um mês é assustadora, mas fica ainda mais quando colocada em perspectiva com a realidade esportiva mundial. Desde o cenário interno, da própria liga, já fica claro: os Angels e os Padres são a nona e a décima franquias mais valiosas, respectivamente, enquanto o Phillies é apenas o 23° da lista.


Ao lado de Mike Scioscia, longevo e histórico técnico dos Angels que se aposentou recentemente, Mike Trout sorri com gosto: ser o jogador mais bem pago da MLB deve mesmo ser motivo de felicidade. (Keith Allison/Creative Commons)

Elevando isso para o cenário nacional, somente duas equipes de beisebol formam o top 10 de times mais valiosos: New York Yankees e Los Angeles Dodgers (que curiosamente fica empatado com seu conterrâneo do futebol americano, Rams). A nível mundial, então, o beisebol se torna quase irrelevante, com apenas os Yankees figurando entre os dez primeiros. Assim, como a liga consegue pagar esses valores em apenas um jogador?


O cenário se consolida, inicialmente, pois a MLB tem um histórico como competição que vem do século XIX, arrastando a tradição e todas as contradições que isso traz. A última das grandes ligas americanas a usar recursos eletrônicos para revisar jogadas, a MLB também possui um teto salarial duvidoso. Chamado oficialmente de "competitive balance tax", a suposta tarifa de equilíbrio competitivo consiste em multa para os clubes que ultrapassarem um valor, determinado antes da temporada, de investimento no elenco. A multa, entretanto, é de apenas 20%, uma pena ínfima para uma equipe capaz de pagar 300 milhões de dólares em uma contratação. Não é por acaso que o apelido da medida é "luxury tax", a taxa de luxo. Os Yankees, por exemplo, simplesmente ultrapassam os limites e pagam a taxa quase todo ano.


A longevidade da carreira no beisebol também é algo que influencia diretamente nos valores assinados no cheque. Afinal, que outro esporte profissional é capaz de contratar alguém por dez anos e isso soar normal? Quando o tempo de contrato é levado em consideração, para alguns a MLB talvez pague até mesmo uma pechincha, quando comparada às rivais NFL ou NBA, com o perdão da hipérbole.


Porém, a tradição que carrega tantos problemas também traz seus benefícios. Ainda que seja apenas o terceiro esporte mais popular dos EUA, o beisebol vê sua receita aumentar pelo 16° ano consecutivo e os contratos patrocínio apenas crescem, mesmo com a média de idade do público televisivo também aumentando e a frequência nos estádios diminuindo – foram 4% a menos no último ano.


Enquanto isso, a MLB negocia direitos de transmissão pela internet com a DAZN para temporadas futuras e já fechou contrato de transmissão pela televisão com a FOX, de 2022 a 2028, por meros 5,1 bilhões de dólares. Apesar de ter sofrido muito nos últimos anos com a popularidade dos outros esportes e a falta de um público mais jovem, por inaptidão própria, a liga de beisebol está longe de falir. Talvez não falte muito para que os contratos tenham cifras bilionárias já em dólar, sem qualquer conversão para a moeda brasileira...

 

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