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Coronavírus expõe um futebol que já parecia doente

Paralisação com gafes na Itália, sequência das copas europeias e a desumanização do esporte.


A epidemia do coronavírus chegou com tudo na Europa, em especial na Itália. Rapidamente, o país se tornou o segundo mais afetado pela doença, atrás apenas da China. Já são quase 10 mil doentes e mais de 400 vítimas. Um tratado de expansão turística entre os dois países se tornou, infelizmente, uma sentença trágica. Em meio a tudo isso, a decisão do Comitê Olímpico (CONI), ratificada pelo governo italiano, de suspender as atividades esportivas no país, incluindo a Serie A, é o que menos importa. A segurança e a saúde de cerca de 60 milhões de habitantes estão em primeiro plano, como deve ser. O cenário já oferece, no entanto, uma reflexão fundamental para o mundo do futebol. O esporte mais popular do mundo está sufocado. Mais e mais competições, mais e mais dinheiro, cada vez menos espetáculos de qualidade e, é claro, as mesmas 52 semanas disponíveis no calendário. O futebol quase não cabe mais no mundo real.


Pelo menos até o dia 3 de abril, eventos públicos de qualquer espécie não podem ocorrer na Itália – qualquer aglomeração de pessoas está fora de questão a partir desta terça-feira (10), quando começa o isolamento total do país. A quarentena de quem está nas regiões do norte já começou. Porém, ao menos até então, um documento preenchido a próprio punho era a única atitude necessária para, em caráter "especial", haver tráfego livre no país e para fora dele. Foi assim que partidas adiadas do Campeonato Italiano foram realizadas, ainda que com portões fechados, e é assim que Juventus, Napoli, Atalanta, Inter e Roma, os representantes italianos ainda vivos em competições europeias, devem jogar seus mata-matas. Tirar da Itália pessoas que disputam um esporte de contato físico direto, assim como levar outras ao país, ainda que em caráter emergencial, é uma afronta direta à quarentena. E possíveis soluções não vêm de onde deveriam.


Atletas juventinos celebram gol contra a Inter, em um dos jogos disputados com portões fechados. (Reprodução/Twitter Juventus FC)

Enquanto a UEFA só faz o que pode para conter a má publicidade e manter a Liga dos Campeões, principal torneio de clubes do mundo, no cronograma planejado, os clubes italianos não têm opção além de agir. O proprietário do Novara, clube da Serie C, é um dos acometidos pela doença; atletas também já foram diagnosticados. Diversas equipes paralisaram as atividades da base, incluindo a Inter de Milão, que teria jogo decisivo contra o Rennes pela Liga dos Campeões sub-20 e deixou claro que, se necessário, perderá por W.O. Em tese, as competições europeias seguem normalmente. Antes do calendário italiano ser paralisado, o Pro Vercelli, da Terceira Divisão, também se declarou disposto ao W.O., liberando o elenco de jogos e até treinos. Teve que partir dos próprios clubes a sinalização óbvia: de que o futebol não está acima da vida. O medo de não haver tempo para repor os jogos parece tirar o juízo dos mandatários da bola.


Se no Brasil a epidemia ainda não se tornou motivo para preocupação tão generalizada, a situação na Europa é bem diferente. Na Itália, além de tudo, a atuação do poder público e até mesmo dos hospitais tem sido bastante questionável. A dúvida agora é o que ocorrerá se clubes italianos avançarem nos torneios europeus. Há países que baniram voos chegando da Velha Bota.

Parar campeonatos, correr o risco de ter que declará-los encerrados mesmo que pela metade, até mesmo a possibilidade aterrorizante (para a UEFA) de adiar ou mesmo cancelar a Eurocopa, tem um efeito imediato muito claro: a perda de dinheiro. Não se engane, o mesmo ocorre na China e na Ásia, onde campeonatos nacionais foram paralisados e metade da Liga dos Campeões já foi adiada (a fase de grupos é regionalizada). Porém, o impacto financeiro é bem diferente na Europa. Chega a ser difícil mensurar a quantidade de dinheiro que a UEFA, por exemplo, não só deixaria de ganhar, mas potencialmente precisaria devolver, caso o problema se prolongue. Na Itália, o estrago já está feito. Quem sabe se o futebol não fosse tão sufocado em condições normais, ele pudesse se adaptar, sem traumas, para sobreviver em condições extraordinárias. Enquanto isso não ocorre, a escolha é necessária e não é difícil: o futebol para, a vida continua.

 

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