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Culturalmente, a NFL atual se basta em si mesma

Não há diversidade no topo porque não há interesse; liga ignora aspecto multicultural.


"Na NFL eles tem um monte de velhos brancos como donos de equipe e com uma mentalidade escravocrata. É como se eles dissessem: 'este é o meu time e você vai fazer o diabo do que eu disser ou nos livramos de você'". Foi com essa declaração, dada ao programa The Shop, da HBO, que o astro da NBA LeBron James fez muita gente refletir sobre as formas diferentes com que cada liga americana lida com o multiculturalismo.

Claro que o termo "mentalidade escravocrata" foi o que mais estampou manchetes de portais e jornais ao redor do mundo, mas, por trás do sensacionalismo midiático, existe muita verdade nas palavras do craque do Los Angeles Lakers. Dezesseis anos mais velha que sua contraparte no basquete, a Liga Nacional de Futebol Americano tem muito o que aprender com a NBA.


Sendo bem honesto, "acusar" uma liga de ter um monte de homens velhos e brancos no comando é chover no molhado em um país como os Estados Unidos. A própria NBA só tem dois donos de franquias que fogem a esta descrição: e um deles é seu maior jogador de todos os tempos, Michael Jordan, chefão do Charlotte Hornets. O outro é Vivek Ranadivé, mandatário do Sacramento Kings. A aquisição da equipe pelo indiano, em 2013, marcou a primeira vez que qualquer uma das grandes ligas americanas tinha mais de um dono que passaria no "teste LeBron". Não é muito, mas mesmo isso realmente já é superior à realidade da NFL, que tem apenas um – Shahid Khan, paquistanês que comanda o Jacksonville Jaguars – dentre os 31 donos; e nenhum afro-americano.


A NFL tem 32 franquias, mas apenas 31 donos majoritários: o Green Bay Packers é gerido como uma organização pública e sem fins lucrativos. Até 2016, eram mais de 360 mil "donos"; e nenhum deles pode ter mais 4% das ações públicas do clube.

A regra na NFL é: quanto mais se sobe na escala de comando, menos diversidade. Afinal, dentro da quadra e do campo, tanto o basquete quanto o futebol americano são esportes majoritariamente negros. Os números são indiscutíveis: em 2016, 74,3% de todos os atletas da NBA se declaravam negros; na NFL, também em 2016, o domínio era de 68%.


Mas apesar de números próximos, a maior disparidade racial das ligas está na forma como elas se apresentam. LeBron fez sua declaração no dia 22 de dezembro de 2018, alguns dias antes da famosa rodada de Natal da Associação Nacional de Basquete. Durante a rodada, cada um dos cinco jogos teve uma apresentação musical: o gênero? Hip Hop, extremamente ligado à cultura afro-americana. Toda semana, na NFL, um dos jogos mais importantes da rodada, no domingo à noite, é apresentado por uma balada country – ritmo historicamente branco.


Talvez a NFL acredite, por ainda ser a liga mais assistida e mais rica, que seja autossuficiente – um mal que atinge os primeiros colocados. Porém, o fator internacional pode ter grande influência. O basquete é popular ao redor do mundo, com grandes ligas na Europa e na Ásia, enquanto o futebol americano segue sendo praticado de forma profissional praticamente apenas na América do Norte. Também por conta disso, ao início da temporada de 2018, a NBA contava com 108 jogadores estrangeiros de 42 países, representando 24,8% do total de jogadores inscritos na competição.


Robert Kraft, dono dos Patriots, conversa com Shahid Khan, dos Jaguars, em um dos encontros anuais de mandatários da NFL: atualmente, o paquistanês é o único nessas reuniões que não faz parte do "monte de velhos brancos" destacado por LeBron James. (Divulgação/Arizona Cardinals)

O problema está claro: não é apenas a dificuldade para chegar ao topo da pirâmide, ou mesmo os obstáculos estruturais para que haja mais diversidade na "prateleira de cima" da NFL. Tudo isso também é verdade, afinal, na NBA. Mas no caso da liga de futebol americano, há também uma barreira extra; o total desinteresse interno em se expandir culturalmente. A NFL se fecha na sua própria realidade, por isso incomoda pessoas de todas as opiniões políticas e perde credibilidade.


Mesmo com tudo isso, a liga tem um mercado consolidado, os que continuam (como nós) são fãs fiéis e das 26 maiores audiências do horário nobre nos Estados Unidos em 2018, 18 foram jogos da NFL. Porém, já passou da hora de tirar a viseira que impede que a liga e, por consequência, o esporte, se abram para o mundo. E em muitos casos, o mundo está logo ao lado, pois até mesmo parte de seu próprio mercado a NFL faz questão de ignorar. Assumir-se como um esporte multicultural ajudaria a liga a crescer ainda mais, tanto nos Estados Unidos, quanto em mercados emergentes – como o Brasil e o México, onde ela tem força.


Se os donos e o comissário Roger Goodell tivessem a mesma agilidade para abraçar outras perspectivas como têm para negar sua própria panelinha racial e cultural, talvez o futebol americano já tivesse se tornado um esporte mundial. E muito mais gente estivesse assistindo aos playoffs, que começaram neste sábado (5). Pode ter certeza de que eu não perco um jogo sequer; e sobre a bola oval em si, comentamos sempre no Por que Waldemar?, o podcast da casa. Mas isso não me constrange nem um pouco em apontar um problema tão importante e profundo. Pelo contrário. Quanto mais próximo da pele, mais se vê as rugas. E a NFL, neste âmbito, parece uma bruxa de desenho animado: estragada e sem a menor vontade de mudar.


 

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