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Em 1933, Seleção Paulista campeã em meio ao caos

Com amadores e profissionais dividindo o futebol, paulistas vencem Brasileiro de Seleções.


São tantas as discussões sobre o início do Brasileirão – se foi em 1937, em 1959, em 1967 ou em 1971 – que pouco se atesta um fato histórico: o primeiro Campeonato Brasileiro, com este nome mesmo, data de 1922. A diferença para a competição que conhecemos hoje é que, na época, quem competia no "Campeonato Brasileiro de Futebol" eram seleções que representavam estados da União. E o torneio chegou a ser realizado, ainda que com longos hiatos, até 1987. Com o tempo, o sufixo "de Seleções" foi adicionado ao nome, já que a competição nacional que o país se acostumou a chamar de Brasileiro era disputada por clubes. Os estados mais bem-sucedidos, é claro, foram São Paulo e parte do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), mas Bahia e Minas Gerais também viveram bons momentos – e o Pará chegou a conquistar três medalhas de bronze em quatro anos, no fim da década de 1920.


As primeiras edições do torneio ocorreram sem muitos percalços, com exceção da rivalidade (às vezes violenta) entre paulistas e cariocas. Entretanto, o Golpe de 1930 impediu a realização do campeonato naquele ano; e o mesmo aconteceu em 1932, com a Revolução Constitucionalista. No ano seguinte, a competição também ficou sob risco por muito tempo, já que o futebol brasileiro vivia o auge da disputa entre os que defendiam o amadorismo e o profissionalismo. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que organizava o certame, não aceitava nenhum atleta profissional ou mesmo clubes que os empregassem. Isso gerou rachas por todo o país, em especial no Rio de Janeiro, onde foi fundada uma nova instituição, a Liga Carioca de Futebol (LCF), para gerir o torneio local com equipes favoráveis ao profissionalismo – principalmente Fluminense, Vasco, América/RJ e Bangu.


Waldemar de Brito, carregado pela torcida do São Paulo da Floresta, em 1933: naquele ano, o clube foi vice-campeão paulista e o jogador foi campeão brasileiro de seleções; nos dois torneios, foi o artilheiro. (Divulgação/São Paulo FC)

A partir daí, veio a cisão definitiva entre CBD e boa parte da organização de futebol no eixo Rio-São Paulo. Começavam a ser realizadas partidas e competições profissionais ao redor do país, enquanto a confederação ligada à FIFA não as reconhecia. Foi criada então a Federação Brasileira de Futebol (FBF), e ela assumiu as rédeas do Campeonato Brasileiro de Seleções (agora com profissionais). Assim, nas últimas semanas de 1933, o certame foi realizado. E a seleção de São Paulo engoliu os adversários, incluindo duas vitórias sobre os rivais cariocas na final. Há exatos 85 anos, em 31 de dezembro de 1933, os paulistas bateram o Distrito Federal por 2 a 1, no Parque Antártica. E venceriam novamente em São Januário, na semana seguinte, para mostrar que mandavam no futebol brasileiro de seleções – tanto como amadores, quanto como profissionais.


Àquela altura, a balança do histórico pesava a favor dos cariocas. O Campeonato Brasileiro de Seleções de 1933 foi a décima edição do torneio, e o Distrito Federal possuía cinco títulos (contra quatro de São Paulo) dos nove possíveis. Mas o time paulista melhorava ano após ano, conforme suas bases, o Palestra Itália e o São Paulo da Floresta, duelavam repetidamente pelo topo do futebol do estado. Entre 1930 e 1954, um dos dois sempre foi, no mínimo, vice-campeão – incluindo as novas identidades como Palmeiras e São Paulo, a partir de 1942 e 1935, respectivamente. Porém, o auge do embate foi mesmo entre 1931 e 1934. Naquele período, o Campeonato Paulista na verdade parecia um gigantesco Choque-Rei prolongado. Os rivais disputavam o título ponto a ponto, gol a gol: o palestrino Romeu Pellicciari e o tricolor Waldemar de Brito chegaram a se revezar na artilharia da competição. Mas naquela seleção paulista, eles estavam do mesmo lado. Jogavam juntos. Venciam juntos.


O time-base que conquistou o Brasil para o estado de São Paulo em 1933: Jurandyr; Neves, Junqueira; Tunga, Zarzur, Tuffy; Luizinho, Gabardo, Romeu, Waldemar, Hercules.

E em 1933, o domínio foi implacável. Após tanta insegurança sobre a própria realização do torneio, a seleção paulista estava tudo, menos insegura, nas últimas semanas do ano. Foram quatro jogos, quatro vitórias, 17 gols marcados e apenas três sofridos. Para o primeiro Campeonato Brasileiro da era profissional, o time de São Paulo parecia ser profissional há muito tempo. Mas pelo menos no caso dos dois grandes craques, Romeu e Waldemar, já havia anteriormente uma espécie de amadorismo "marrom", que vinha sendo praticado ao redor do país. Quando os jogadores não podiam ser assalariados, o clube aplicava o "bicho" como incentivo ou ajudava a financiar a empreitada comercial do atleta fora do futebol. Romeu, por exemplo, tinha uma tinturaria bancada pelo Palestra Itália. A transição foi tranquila para ele e o colega Waldemar, tanto pelo apoio dos clubes quanto pelo talento – até hoje, ambos estão entre os artilheiros com maior média de gols por Palmeiras e São Paulo.


Waldemar, aliás, foi o grande goleador da competição, com quatro gols – sendo três na goleada maiúscula de 8 a 0 sobre a seleção do Paraná, na semifinal. E o último, não poderia ser diferente; foi naquela final, exatos 85 anos atrás, no último dia de 1933. O jogo terminou 1 a 1 no tempo normal, mas Luizinho fez a diferença na prorrogação e os paulistas venceram. Na semana seguinte, no Rio de Janeiro, roteiro igual: 2 a 1 no tempo extra, dessa vez com o gol definidor vindo de Hercules, colega de ataque de Waldemar no São Paulo da Floresta. Os paulistas eram novamente os donos do Brasil.


Ah, e sobre esse tal Waldemar de Brito... Ele virou treinador após se aposentar e, anos mais tarde, à frente do Bauru Atlético Clube, foi o responsável por descobrir, em 1954, o talento de um garoto chamado Dico. Dois anos depois, quando o rapaz chegou ao Santos, com o apelido de Pelé já consolidado, Waldemar declarou: "vai ser o melhor do mundo". História para outra oportunidade...

 

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