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Esporte e política: memórias de uma simbiose

Não apenas um se relaciona profundamente com o outro, como muitas vezes são um só.


"Se todas as batalhas dos homens se dessem apenas nos campos de futebol, quão belas seriam as guerras".


A vida tem coincidências interressantes, como o fato de eu ter pensado em iniciar a coluna desta semana com a frase "como diria o poeta", sem mesmo saber que a reflexão acima de fato pertence a um poeta, Augusto Branco. Em um conjunto ainda mais improvável, a responsabilidade por este espaço, aos domingos, significa que fui agraciado com o dia 31 de março, uma data tão sombria para o povo brasileiro. Justo eu! O colunista de esportes americanos. Por isso, peço encarecidamente a você, nosso leitor, uma licença poética (voltamos novamente à poesia). Hoje, expandimos um pouco o escopo de países e esportes tratados aqui na coluna, para mostrar que a importância do esporte vai muito além dele próprio.


Em 1936, quando Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro olímpico em uma Berlim já tomada pelo nazismo, desferiu um golpe mais forte do que qualquer tanque alemão poderia causar em seus adversários. Um negro ganhar diante dos olhos de Hitler foi um ato político e esportivo que entrou para a história, um tapa com luva de pelica, mas com o peso de duas toneladas.


Quando os atletas do Dynamo de Kiev se recusaram a perder jogos para o time da Luftwaffe (força aérea alemã), durante a ocupação nazista da Ucrânia e sob ameaça de morte, ajudaram o país a enxergar no esporte uma forma de resistir aos invasores. Mesmo que, infelizmente, a consequência tenha sido a prisão, tortura e até mesmo o assassinato de membros do elenco que venceu a aeronáutica germânica.


Tommie Smith sobe ao lugar mais alto do pódio, sapato na mão e meias pretas: nunca foi só um esporte. (Angelo Cozzi/Creative Commons)

Voltando para as Olímpiadas, o México também foi palco de um momento emblemático. Em 1968, os americanos Tommie Smith e John Carlos ganharam as medalhas de ouro e bronze, respectivamente, nos 200 metros rasos. Ao subir no pódio, tiraram os sapatos, ficaram de meias pretas e não levantaram as cabeças ou levaram a mão ao peito durante o hino dos Estados Unidos. Ao invés disso, cabeça baixa e punho erguido, saudação conhecida dos Panteras Negras, movimento socialista e revolucionário pelos direitos da população negra americana. O ato reverberou mundialmente os brutais assassinatos de Malcolm X e Martin Luther King, dois dos maiores ativistas de toda a história.


Quando o Santos de Pelé chegou ao Congo, em 1969, em meio a um conflito civil pós-independência, ninguém jamais imaginaria que 22 homens jogando pela posse de uma bola poderiam ser capazes de parar uma guerra. Feito que somente o Rei do futebol, talvez o maior atleta de todos os tempos, seria capaz de fazer. Por 90 minutos, o Congo trocou os fuzis pela bola nos pés.


A importância do esporte para nossa vida política é tão grande que até mesmo os mal intencionados sabem disso, como quando o Setembro Negro decidiu sequestrar atletas da delegação israelense, em nome da libertação da Palestina. Foram 17 mortes naquele trágico setembro de 1972, com os Jogos Olímpicos a pleno vapor. O maior atentado já ocorrido durante evento esportivo.


Em terras brasileiras, a alegria de ver nossa seleção levantar a taça em 1970 também foi contaminada pelo constrangimento de ver todo o elenco campeão, um dos maiores times da história, desfilando em comemoração de mãos dadas com os líderes do regime militar.


O esporte é parte central da vida em sociedade, como a expressão cultural e política que é. E por isso, não pode ser despido de nenhum destes aspectos. Não existe política sem esporte e muito menos esporte sem política. Pela própria magia que carrega consigo, o esporte é a soma dos seus fatores. E também é ainda mais.


Por tudo isso, não temos como disassociar uma coisa da outra. E é por isso que, 55 anos depois de um dia triste e trágico, neste 31 de março, eu escrevo para hoje e, espero, para sempre: ditadura nunca mais.

 

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