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FIFA, Brexit e o Chelsea: futebol inglês em alerta

Banido do mercado, time de Londres é só o primeiro afetado por duas grandes turbulências.


Na última sexta-feira (22), o Chelsea foi surpreendido pela FIFA com uma punição severa: duas janelas de transferência sem poder contratar. Efetivamente, neste momento, o clube inglês está banido do mercado da bola. Bom, mas talvez não tenha sido de fato uma "surpresa". Os azuis londrinos eram investigados, sabidamente, desde o fim de 2017. E certamente, fora do radar, a entidade máxima do futebol já estava há muito mais tempo monitorando as ações do Chelsea. Até porque a infração pela qual os Blues foram pegos está longe de ser exclusiva deles. Recentemente, equipes como Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madri também foram punidos pela mesma prática: o aliciamento de jogadores estrangeiros menores de idade. Para a FIFA, tais atletas só podem ser contratados caso os pais ou guardiões se mudem para o país do clube por razões alheias ao futebol. Aparentemente, o Chelsea violou a regra quase 30 vezes.


Isso não significa que a pena, supostamente exemplar, aos ingleses, será cumprida na totalidade. O clube do magnata russo Roman Abramovich vai recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). O Real Madrid teve sua pena significativamente abrandada após recurso. E o rival Barcelona, embora tenha cumprido a punição total, demorou para fazê-lo. Efeitos suspensivos significaram uma última janela para o Barça gastar tudo o que podia: foi quando contrataram, entre outros, Rakitić, Suárez e ter Stegen. Além disso, a Federação Inglesa estará junto ao Chelsea no recurso. A própria FA foi multada em quase 400 mil libras, além de ter um prazo máximo de seis meses para regularizar todos os registros. Isso porque as regras na Inglaterra são mais relaxadas, em comparação com a FIFA. Nas categorias de base e nos times B, garotos podem disputar partidas amistosas, como teste, sem passarem por registro – prática que a FIFA não aceita.


Pilar do Chelsea desde 2012, Hazard tem contrato até junho de 2020, e há rumores de que flerta com o Real Madrid: o que muda com a punição ao clube? (Ben Sutherland/Creative Commons)

Há outras exceções à regra: uma delas é quando o clube de destino fica a menos de 100km do país de origem do atleta – o que quase nunca se aplicará ao Chelsea; e a outra é para cidadãos europeus entre 16 e 18 anos, que têm livre transferência na União Europeia. E aí aparece o fator mais problemático não apenas para o Chelsea, mas para todos os clubes ingleses – e para a própria FA. A iminente saída do Reino Unido do bloco europeu. Parece que foi ontem, mas já se passaram dois anos e meio de quando a maioria (51,9%) dos eleitores britânicos optaram pelo fim da relação entre o país e a União Europeia. Neste tempo, o objetivo era que o Parlamento discutisse (e decidisse) os termos do divórcio, mas pouco se fez. A primeira-ministra Theresa May chegou a expor proposta em janeiro, que foi rejeitada. No dia 12 de março, haverá nova votação, tanto da proposta quanto do que fazer posteriormente: a data-limite é 29 de março.


Se até este dia nada for decidido – nem mesmo uma moção especial para adiar o prazo, opção que começa a ser considerada –, o Reino Unido da Grã-Bretanha deixará de ser parte da União Europeia do dia para a noite, sem plano algum de transição. Produtos que circulavam livremente no mercado, como alimentos e mesmo remédios, serão sobretaxados ou sequer entrarão no país; o próprio procedimento de entrada e saída de pessoas passará por mudanças que não são claras nem mesmo para os cidadãos. Em meio a tantas incertezas, muitas potencialmente graves, o esporte é o de menos. Entretanto, muitas das consequências do "Brexit", como é chamado o processo de saída do Reino Unido, atingem em cheio o futebol britânico (especialmente o inglês), independente da forma como ocorram. E um dos setores mais vulneráveis às mudanças é justamente o da base. Hoje, contratar garotos do resto da Europa faz parte do planejamento dos clubes.


Talvez um problema muito mais grave (e anterior) a qualquer banimento do mercado, no caso do Chelsea, é o fato de que são raros os garotos que vingam no time de cima. Ou seja, o clube está sendo punido por contratar jogadores que sequer renderam muitos frutos. De fato, a lógica já precisava ser ajustada.

Não é surpresa alguma que todos os times da Premier League tenham sido contrários ao Brexit, em 2016. O Chelsea, claro, entre eles. Os londrinos, aliás, não são os únicos na mira da FIFA, já que outros quatro clubes (não identificados) também são investigados atualmente. E agora, os ingleses parecem estar entre a cruz e a espada. De um lado, a FIFA, do outro, o Brexit. O momento é mesmo de repensar estratégias. E neste ponto, na verdade, o Chelsea pode até sair na frente, por incrível que pareça. Desde já, as divisões de base do clube são obrigadas a iniciar uma mudança de modus operandi – respaldada e acompanhada pela FA – que todos os outros precisarão passar. E mesmo que seja punido para a próxima janela de transferências, a partir de junho, ela é um mistério. A indefinição sobre as próprias condições do país colocam todos os times, neste momento, incapazes de muito planejamento. O trabalho é mesmo o de manutenção do elenco.


Não poder contratar, é claro, colocará o Chelsea nas mãos de seus craques, que poderão pedir quantias enormes para ficar, como Hazard. E o clube vive uma crise institucional, como ficou claro na final da Copa da Liga, no último domingo (24), perdida nos pênaltis para o Manchester City. Porém, não apenas os recursos podem adiar (ou diminuir) a pena, como o próprio clube pode se planejar para aguentar este duro período de transição e aprender com erros que os rivais certamente cometerão durante as primeiras janelas pós-Brexit. O caminho de manter o elenco, reincorporar quem retornará de empréstimo e, talvez, contratar quem já está jogando na Inglaterra, deve ser o ideal para qualquer clube na Premier League. Nesta incerteza, tentar muito mais do que isso pode significar um tiro pela culatra. E o Chelsea, amarrado, se vê em posição certamente desconfortável. Mas pelo menos, de mãos atadas, é bem mais difícil acertar um tiro no pé.

 

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