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Gafe de Vadão é alerta para a seleção feminina

Dificuldades do Brasil também passam por atalhos que veem o futebol mediante estereótipos.


A cena, convenhamos, já é bem constrangedora. Dois homens assalariados da CBF em um palanque discutindo o futebol feminino brasileiro, o campeonato, as condições de trabalho e até o futuro da modalidade. Um deles, o técnico estagnado que parece ter cadeira cativa no comando da seleção feminina de futebol, anuncia as convocadas para a Copa do Mundo que se aproxima. Uma chamada protocolar, sem tanta contestação e com direito a merecidos louros para a confirmação do sétimo Mundial a ser disputado pela meio-campista do PSG Miraildes Maciel Mota, a Formiga. Parecia que ficaria nisso; uma situação um tanto embaraçosa no geral, porém ofuscada pelas circunstâncias práticas. Isso durou até Oswaldo Alvarez, o Vadão, falar exatamente sobre uma questão prática: sua impressão acerca da seleção da Jamaica, adversária do Brasil na estreia, em 9 de junho, pelo grupo C da Copa do Mundo. Ali, o caráter do evento ganhou tons de deboche.


As palavras foram simples: "Temos a Jamaica, que foi a surpresa, nunca tinha participado, a gente já assistiu vários jogos, inclusive os que ela conseguiu a classificação; depois fez dois jogos com o Chile. É uma equipe que não foge da característica do futebol africano, uma equipe muito forte, muito veloz, com boa estatura". Não, o treinador não está falando que o país fica na África, mas é clara a muleta. Deixo para pessoas mais qualificadas uma eventual análise do que leva alguém a ver um time majoritariamente formado por atletas negras da América Central e carimbá-lo com estilo africano (cuja própria característica é discutível), mas talvez a campanha horrorosa do time de Vadão na Copa She Believes, com três derrotas em três jogos – parte de uma sequência de nove reveses seguidos – tenha feito o técnico esquecer quem venceu o torneio com maioria negra há dois anos: a França, anfitriã do Mundial. Será que elas jogam "nos moldes africanos" também?


O técnico Oswaldo Alvarez e Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF, apresentam a convocação para a Copa e discutem a modalidade. (Lucas Figueiredo/CBF)

Enfim, reitero que deixo a análise social para mentes mais brilhantes, até porque o próprio Brasil poderia facilmente ter uma seleção majoritariamente negra. E caso algum treinador estrangeiro resumisse o time aos estereótipos do vigor físico e da velocidade, que não significam nada, não estaria apenas reverberando um preconceito; estaria, também, falhando clamorosamente em seu papel técnico. E é neste ponto que quero chegar, pois é o único que me sinto minimamente capaz de discutir: procurar características em uma equipe para encaixá-la em uma compreensão pré-fabricada é péssimo hábito técnico e a melhor maneira de ser surpreendido dentro de campo. Não duvido que Vadão tenha assistido à classificação jamaicana para a Copa, em vitória nos pênaltis sobre o Panamá (outra equipe majoritariamente negra, aliás), entre outros jogos. No entanto, de pouco adianta ao se calcar em prenoções. O técnico fez parecido com a Itália, outra rival de grupo.


Nas palavras do treinador, "a Itália tem a característica de compactação, sempre se defendeu bem". Frase vazia e que poderia facilmente ser proferida por alguém que nem viu a seleção italiana jogar. O crescimento recente do futebol feminino na Itália, inclusive, vem na esteira da criação da equipe de mulheres da Juventus, em 2017. Um time extremamente equilibrado, com defesa e ataque bastante prolíficos, vencendo e ultrapassando na reta final um time também completo e com mais tradição no setor feminino, a Fiorentina. Outras equipes cujos destaques estão na seleção, por outro lado, possuem graves problemas defensivos, como Roma e Milan. E a treinadora, Milena Bertolini, é uma ex-zagueira conhecida por exigir desempenho ofensivo – cobrou muito do time nas eliminatórias, por exemplo, em que Alemanha, Espanha, Holanda, Suécia e Inglaterra tiveram melhores números tanto no ataque, quanto na defesa. Difícil defender a superficialidade.


Nove derrotas consecutivas e dez nos últimos 11 jogos. Este é o momento em que chega o time de Vadão para a Copa do Mundo. É inegável que há muito talento na seleção, porém talento sempre houve. E também sempre faltou algo a mais para conquistar as competições mais importantes. Talvez seja exatamente um estudo melhor dos adversários, para potencializar as virtudes da equipe.

Sendo justo, Vadão é o ponto visível de toda uma cultura de chavões e frases feitas que rodeiam as análises sobre o futebol. A ponta do iceberg, se tanto. E a imprensa esportiva tem responsabilidade grave nisso. Jornalistas "analisam" equipes sem sequer assistir partidas ou mesmo lances, baseados em padrões de fácil encaixe. Você sabe do que estou falando. Se um time de Fernando Diniz vencer um time de Felipão, a narrativa já está construída independente do desenrolar da partida dentro de campo. O mesmo ocorre no caso contrário. Isso não significa que não exista uma cultura de jogo, escolas, em países, continentes, etc. É claro que existe, no escopo mais amplo. Entretanto, no dia a dia do futebol, de analistas a treinadores, o que se vê em campo (e o que se prepara para enfrentar) é um time, são as jogadoras e suas características, tão moldadas pela cultura quanto responsáveis por moldá-la. Ver só um lado desta moeda é, no mínimo, míope.


O salto que falta para a seleção brasileira feminina é um título de nível mundial. A equipe é muito bem-sucedida no âmbito continental, com sete taças de Copa América e três Panamericanos, além de um vice em cada competição. Porém, para o próximo Pan, em julho, o time não tem vaga. Em Copas e Olimpíadas, são três finais perdidas e quatro quedas nas semifinais. Não é difícil ver que, quando o abismo de cultura futebolística é maior e mais complexo, os desafios se complicam mais. Alemanha, Estados Unidos, China, Suécia... Os algozes históricos do Brasil em competições de caráter mundial não são apenas grandes seleções, mas times que demandam mais compreensão e estudo, indo além dos preconceitos. Na Copa América, em 2018, a seleção não teve dificuldades para bater Argentina, Equador, Venezuela, Bolívia, Chile e Colômbia. Tem sido assim. Ainda há tempo para colocar o dever de casa em dia e fazer o mesmo no cenário global.

 

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