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Há 40 anos, o Guarani era campeão brasileiro

Após oscilar no início, Bugre emendou onze vitórias seguidas e levou a taça com autoridade.


Como tantas histórias de triunfo, começou com uma derrota. Quatro meses e meio antes de ser o palco do momento mais glorioso da história do Guarani Futebol Clube, o estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, viu o time da casa ser derrotado em sua estreia no Campeonato Brasileiro de 1978. Com três gols de Roberto Dinamite, o Vasco saiu vencedor no principal duelo da primeira rodada do Grupo D. A partir dali, entretanto, o Guarani emplacou uma sequência invicta de nove partidas, com o Brinco de Ouro testemunhando goleadas sobre Confiança (5 a 0) e Itabuna (7 a 0), além da vitória no dérbi contra a Ponte Preta (2 a 1). Era só o início, literalmente apenas a primeira fase, da estrada que levou o Bugre a ser campeão brasileiro, há exatos 40 anos, em 13 de agosto de 1978.


Muito antes de pensar no título, o Guarani pensou no time. É fácil olhar para trás,

lembrar do que alguns jogadores se tornaram e concluir que se tratava de um timaço. Porém, o então novato treinador Carlos Alberto Silva – que depois se tornaria figura carimbada em grandes clubes brasileiros por quase duas décadas, além de treinar La Coruña, Porto e a seleção brasileira – tinha um elenco enxuto nas mãos. E o time foi se encontrando no decorrer do campeonato, com diversos jogadores da base bugrina recém-promovidos ao profissional, incluindo Antônio de Oliveira Filho, um garoto de 17 anos conhecido como Careca. Durante a segunda fase, inclusive, os rivais de grupo São Paulo e Vasco se viram desfalcados de peças importantes, por conta da Copa do Mundo. Mas o Guarani ainda não estava pronto.


O time-base da conquista histórica do Guarani: Neneca; Mauro, Gomes, Édson, Miranda; Zé Carlos, Renato, Zenon; Capitão, Bozó, Careca. Téc.: Carlos Alberto Silva.

Na verdade, apesar de uma boa sequência de invencibilidade na primeira fase, foram duas classificações difíceis. O time campineiro ficou em quinto no Grupo D, na primeira fase, e em quarto no Grupo J, na segunda – com direito a derrota doída para o Remo, em Belém, por 5 a 1 (cinco gols de Bira). Mas o time se recuperou e alcançou o objetivo. Em ambas fases de grupos até aquele momento, seis equipes passavam. E naquele interminável campeonato de 74 clubes, o Guarani ainda teria que encarar mais uma fase de grupos, a terceira. Desta vez, apenas os dois primeiros seguiriam no torneio. Internacional, Santos, Goiás e Botafogo/SP eram os principais rivais. Enfim, era a hora do Bugre. Dali em diante, o Guarani seguiria invicto até o fim.


De cara, um 3 a 0 sobre o Internacional em pleno Beira-Rio deu o tom do que vinha pela frente. Na rodada seguinte, o Guarani empata com o Goiás fora de casa, no último resultado diferente de vitória que teria no campeonato. A equipe passou o trator no resto do grupo e se classificou em primeiro para as quartas-de-final, onde enfrentaria o Sport. Ainda nas últimas rodadas do Grupo Q, o goleiro Neneca, ídolo bugrino, inicia uma contagem que chegaria a quase 800 minutos sem ser vazado. Com a ajuda, é claro, do sistema defensivo que havia se tornado muito forte durante a competição, com os laterais Mauro e Miranda, da base, o experiente zagueiro Gomes e um dos pilares do time, Édson, que atuou em 30 daqueles 32 históricos jogos. Mais do que ele, apenas o meio-campista Renato, que disputou 31, formando um trio com Zé Carlos e o líder técnico do time, Zenon.


Zenon e Careca terminaram o campeonato com a mesma quantidade de gols: treze. Empatados na artilharia do Guarani no torneio.

Guarani Campeão Brasileiro 1978
Em pé: Miranda, Zé Carlos, Mauro, Neneca, Édson, Gomes. Agachados: Capitão, Renato, Careca, Zenon, Bozó. (Divulgação/Guarani FC)

E foi no momento mais agudo do campeonato que Zenon mais brilhou. Não apenas servindo os atacantes, mas também fazendo gols. Contra o Sport, fora de casa, foram dele e do ponta-direita Capitão os gols da vitória por 2 a 0. Em casa, no Brinco de Ouro, mais dois de Capitão e uma goleada por 4 a 0. Era a vez do Vasco, novamente, nas semifinais. Mas o Guarani não era mais aquele time do início da competição. A equipe cruzmaltina não tinha Roberto Dinamite no primeiro jogo, vencido em Campinas pelo Bugre por 2 a 0. Mas no segundo, com o retorno do ídolo, a torcida do Vasco lotou o Maracanã, acreditando na virada. Em apenas sete minutos, após jogada entre Careca e o ponta-esquerda Bozó, gol de Zenon. 100 mil vascaínos se calam. E o craque do Guarani ainda fez mais um no segundo tempo: 2 a 1. O Bugre estava na final.


Àquela altura, o esquadrão campineiro colecionava nove vitórias consecutivas e a invencibilidade já durava treze jogos. Demorou para engrenar, mas havia se tornado o melhor time da competição. Mesmo assim, invariavelmente o Palmeiras de Leão, Marinho Peres e Jorge Mendonça entrava como favorito na disputa, especialmente fora de campo. A Federação Paulista de Futebol (FPF/SP) chegou a propor que ambas as partidas fossem disputadas no Morumbi, mas o Guarani e a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) bateram o pé: por ter melhor campanha, o Bugre mandaria a finalíssima em Campinas. Não que o estádio do São Paulo metesse medo...


A campanha do campeão: 32 jogos, 20 vitórias, 8 empates e 4 derrotas. 57 gols marcados e 22 sofridos.

Na partida de ida, fora de casa, o Guarani novamente encarava cerca de 100 mil torcedores presentes – mas, dessa vez, quase um quarto da torcida era bugrina. A frieza com a qual o menino de 17 anos encarou aquela final fez toda a diferença. A malandragem de Careca tirou o já experiente Leão do sério. Após muita provocação, o goleiro palmeirense de 29 anos agrediu o centroavante bugrino: pênalti e expulsão. Sem substituições restantes, o atacante Escurinho assumiu o gol do time da capital, mas Zenon converteu a penalidade. 1 a 0 e uma vantagem importante levada para Campinas. Faltava pouco para o dia que marcaria a história do Guarani.


13 de agosto de 1978, há 40 anos. O Brinco de Ouro da Princesa apinhado, mas não sem tensão. O Bugre não tinha Zenon, suspenso pelo cartão amarelo no jogo de ida, e o artilheiro Careca não havia marcado nenhum gol no mata-mata. Naquele dia, ele fazia exatamente um mês de seca. Na quarta rodada da terceira fase, fez o único gol da vitória sobre o Botafogo/PB, em 13 de julho. Desde então, não balançava as redes. Mas a espera não demorou muito mais. No fim do primeiro tempo, em finalização de Bozó, o goleiro Gilmar, substituto de Leão, rebate. Frio, Careca aproveita a sobra. Gol do Guarani. Gol do campeão. 1 a 0. O time campineiro segura o Palmeiras no segundo tempo e, após passar o trator em seu grupo da terceira fase, o Bugre também passa o trator no mata-mata, vencendo todos os jogos, em casa e fora. Encerra o torneio com onze vitórias seguidas e 15 partidas sem perder.


A taça era incontestavelmente bugrina. E a glória também. Quarenta anos depois e para sempre.

 

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