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Há 75 anos, Palmeiras buscava seu décimo estadual

Conquista foi ofuscada por anos anteriores e marcada por ausência relevante na decisão.


A história da arrancada heroica do Palmeiras, em 1942, é uma das mais conhecidas sobre o clube, definidora que é da identidade palestrina. Ser alviverde é se orgulhar de como surgiu a Sociedade Esportiva Palmeiras. Como o lema que ficou famoso: "o Palestra morreu líder, o Palmeiras nasceu campeão". Obrigado a mudar de nome por decreto do ditador Getúlio Vargas, o time já era Palestra de São Paulo quando o Campeonato Paulista de 1942 começou, não mais Palestra Itália. Isso porque o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, por ocasião da II Guerra Mundial. As organizações que tivessem em seus nomes alguma conexão à Itália, Alemanha e Japão corriam risco de sofrer confiscos. Mesmo como Palestra de São Paulo, a pressão continuou – em especial da parte do São Paulo Futebol Clube. Até que, líder invicto do campeonato e pouco antes de jogo decisivo contra o próprio rival, o Palestra virou Palmeiras oficialmente.


Na primeira partida com o novo nome, os alviverdes venciam por 3 a 1 no meio do segundo tempo, quando o árbitro marcou pênalti e expulsou o infrator tricolor. Com isso, o São Paulo abandonou o campo. Na estreia, o Palmeiras já era campeão. A conquista abriu período de quase uma década em que são-paulinos e palmeirenses se revezaram no topo do Campeonato Paulista. No ano seguinte, 1943, o Tricolor ficou com o título em outra história definidora: a da moeda que caiu em pé. Para o São Paulo, também afirmação de identidade. A piada interna na organização do torneio era que, para definir o campeão, só era preciso jogar a moeda. Cara, Corinthians; coroa, Palmeiras. A chance do São Paulo era tão pequena que só se a moeda caísse em pé. Ora... Tricolor campeão. Duas histórias tão marcantes que ofuscam o que veio logo depois: o décimo título do Palmeiras. Há exatos 75 anos, em 22 de abril de 1944, o Verdão vencia o Comercial por 3 a 1, a caminho da taça.


Em pé: Og Moreira, Caieira, Oberdan, Osvaldo, Gengo, Dacunto. Agachados: Lima, González, Caxambu, Villadoniga, Jorginho. (Reprodução/Revista Placar)

incontáveis textos sobre a arrancada heroica e sobre a moeda que caiu em pé. Isso não significa que, oportunamente, eles não serão abordados em mais detalhes aqui no NesF. No entanto, aquele título posterior, em 1944, foi muito mais importante do que a atenção que recebe. O Palmeiras foi o primeiro bicampeão da "era FPF" – a federação foi fundada em 1941 – e o segundo clube do estado em atividade (o Paulistano fechou seu departamento de futebol em 1930) a alcançar a marca de dez títulos paulistas. A disputa ferrenha com o São Paulo por toda a década de 1940, aliás, fez o Verdão encostar em outro rival, o Corinthians, que já era o maior detentor de taças estaduais. O triunfo ante o Comercial, naquele 22 de abril, foi fundamental para reestabelecer o Palmeiras no campeonato. O início foi fraco. O alviverde chegou a estar na rabeira das 11 equipes, após dois jogos sem vencer – incluindo derrota para a Portuguesa Santista, pior time da competição.


A crise começou a ser amenizada com a primeira vitória no torneio, que já foi pesada: ante o Santos, no Clássico da Saudade, por 2 a 1. Quando a equipe bateu o Comercial, foi para emendar o terceiro triunfo seguido e colar no Juventus, que liderava o Paulista. A série invicta chegaria a nove jogos e duraria até julho – o campeonato começou no fim de março. Os principais destaques daquele time, é claro, eram o goleiro Oberdan e os artilheiros Villadoniga e Caxambu. A base do time campeão em 1942 tinha sido mantida, em especial Junqueira, Og Moreira, Lima e um dos grandes pilares do Verdão na década: Waldemar Fiúme. Muitos ficaram por tanto tempo no Palmeiras que foram parte de uma das principais conquistas do clube, a Copa Rio de 1951 sobre os italianos da Juventus – reconhecida por alguns como um Mundial de Clubes. Um time que vinha sendo construído por muitos anos. Ali, em 1944, dois técnicos ídolos palmeirenses tiveram papel fundante.


A campanha do Verdão no Paulista 1944 teve 20 jogos, com 15 vitórias, 2 empates e 3 derrotas. O time no jogo decisivo foi: Oberdan; Caieira, Junqueira; Og Moreira, Waldemar Fiúme, Gengo; González, Lima, Caxambu, Villadoniga, Jorginho. Téc.: Ventura Cambón.

Se o treinador Armando del Debbio, muito mais identificado com o Corinthians, foi o comandante da arrancada heroica de 1942, o título que veio dois anos depois teve como um dos técnicos apenas o jogador que marcou o primeiro gol da história do Palmeiras, Bianco. Capitão histórico do Verdão, o zagueiro se destacou também no primeiro grande título da seleção brasileira, há 100 anos: a Copa América de 1919. Para o Paulista de 1944, fez dupla com Ventura Cambón no comando técnico. O uruguaio, entre idas e vindas, seria o treinador na própria Copa Rio, em 1951. A consistência do time montado pelos dois foi provada ao longo daquele torneio. Além do revés para a Portuguesa Santista, o Palmeiras só perdeu mais dois jogos, contra Ypiranga e Corinthians, e terminou com a melhor defesa do estadual. E o jogo do título, é claro, não poderia ter vindo contra outro adversário que não o São Paulo, grande rival do período.


Às vésperas da partida que podia decidir o título com duas rodadas de antecedência, o Tricolor foi ao tribunal para tentar retirar o meio-campista Dacunto do jogo. Ele havia sido excluído de campo contra o Juventus (cartões não existiam na época), mas uma suspensão não era prevista. Ainda assim, o São Paulo foi bem-sucedido nos bastidores e o Palmeiras foi a campo desfalcado. Não teve problema: 3 a 1, com direito a dois gols-relâmpago de Caxambu logo após os dez minutos. Verdão campeão paulista pela décima vez. Com Dacunto ou sem Dacunto, o Palmeiras ganhou, como a torcida cantava na saída do Pacaembu. E a festa foi merecida. Naquele ano, o alviverde foi quem mais venceu, menos perdeu e mais brilhou. Há exatos 75 anos, a vitória sobre o Comercial ajudou o time a pegar fogo, mas o que marcou aquele torneio foi a competitividade. Se em 1942 o Palmeiras nasceu campeão, em 1944 mostrou que seria, por muito tempo, um dos grandes campeões.

 

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