banner 2 globo esporte (branco).png
banner 1 globo esporte (branco).png

Há dez anos, São Raimundo foi finalista de tudo

Campeão da primeira Série D, em 2009, Pantera fez estadual gigante e deixou Remo na pior.


Muitas vezes é difícil reconhecer o "primeiro". Precursores são, por definição, os que quebram uma barreira; mas há sempre diversas formas de quebrá-la. No futebol, em especial, as linhas são extremamente tênues. Quem é o primeiro campeão brasileiro? O Bahia? O Atlético/MG? E o primeiro campeão sul-americano? É o Vasco ou o Peñarol? Quem levou o primeiro mundial? Palmeiras? Real Madrid? Corinthians? Todas as respostas dependem do conceito de "primeiro" daquele que responde. E para todas há sólidos argumentos favoráveis. No entanto, alguns "primeiros" são unânimes, em especial quando já entram sabendo que fazem história. Que disputam um troféu nunca antes disputado. É o caso das divisões inferiores do Brasil, nas quais o Pará tem um histórico de destaque. E o maior deles, claro, é o primeiro campeão da Quarta Divisão, em sua edição inaugural de 2009: o São Raimundo Esporte Clube.


Em 1971, na primeira edição da Série B, o Remo foi vice-campeão. Na Série C inaugural, em 1981, o Izabelense ficou entre os seis primeiros. E quando a Série D se preparava para dar seus passos iniciais, o futebol paraense sabia que teria uma única esperança. Afinal, o estado possuía apenas uma vaga para a competição, cujo dono se classificaria via estadual de 2009. O favorito, claro, era o Clube do Remo, por seu tamanho e história, mas a decadência do Leão era vertiginosa naquele momento. Rebaixado da Série B em 2007, até hoje sua última aparição na Segunda Divisão, o time de quebra fez uma campanha fraca na Série C de transição em 2008 – era necessário ficar entre os 20 melhores para se garantir na Terceirona seguinte, mas o Remo não conseguiu. E com a ascensão do São Raimundo em 2009, a disputa pela vaga foi cabeça a cabeça. Logo na semifinal do primeiro turno, há exatos dez anos, o Pantera levou a melhor e eliminou o Leão. Era só o começo.


O maior momento da história do Pantera. (Divulgação/São Raimundo EC)

Na verdade, já havia começado bem antes. A caminhada do São Raimundo começou ainda na seletiva. E o time pode até ter sofrido para se classificar – foi na última rodada, por um ponto, vencendo o Bragantino e contando com tropeço do Sport Belém –, mas já iniciou a fase principal com tudo. Diante do Remo, em pleno Baenão, 5 a 1 para os mocorongos na primeira rodada. Podia parecer um ponto fora da curva, mas era um presságio do baile que o time santareno daria no belenense. Com a melhor defesa do primeiro turno, o Pantera foi para a semifinal tendo a vantagem do empate, e segurou o Remo em 1 a 1 naquele 18 de fevereiro de 2009, indo apenas para a primeira final do ano. Se ganhasse a Taça Cidade de Belém, estaria na Série D, deixando o Leão sem divisão pela primeira vez na história. Quem deu sobrevida ao rival foi o Paysandu, batendo o São Raimundo e levando o turno. O Remo ainda respirava. Trocou de técnico e foi para a luta.


Rei Artur, ídolo remista que havia guiado o Castanhal à primeira posição na seletiva, em campanha invita, chegou para tentar mudar os rumos. E o Leão de fato fez um segundo turno melhor que o primeiro – mas o Pantera também. Uma derrota do Paysandu para o Águia, na última rodada, significou a liderança do São Raimundo na fase classificatória; ou seja, um Re-Pa logo na semifinal. O Remo, fortalecido, passou, assim como o rival santareno. O duelo agora era direto. Dois jogos para decidir o representante do Pará na Quarta Divisão. Quem vencesse a Taça Estado do Pará, afinal, estava garantido. Seria no mínimo vice-campeão, uma vez que o Papão já estava na finalíssima – e não lutava por vaga, estando na Série C. Só que na final, o Remo não passou sequer um dos 180 minutos com a vantagem. Correu atrás o tempo todo e não foi suficiente. No Mangueirão, 1 a 1. No Barbalhão, 2 a 1 para o Pantera. O Leão estava sem divisão.


Enquanto o calvário azulino rolava, o São Raimundo não tinha nada com isso e seguia em um ano histórico. A decisão definitiva do estadual, contra o Paysandu, foi a terceira final do time de Santarém em apenas cinco meses. Não deu, é claro. Ambos os jogos foram no Mangueirão, onde o Papão amassou: 6 a 1 na ida e 3 a 2 na volta. Tudo bem. Era a hora do maior dos desafios.


O time-base do São Raimundo em 2009 era: Labilá; Ceará, Preto Marabá, Filho, João Pedro; Marcelo Pitbull, Beto, Luís Carlos Trindade, Michel; Rafael Oliveira, Déo Curuçá. Téc.: Lúcio Santarém.

Foram pouco menos de dois meses de preparação entre o último jogo do Paraense e a estreia do São Raimundo na Série D. Foi o suficiente para o time entrar tinindo na competição, vencendo as duas primeiras partidas e encaminhando a classificação no Grupo 2. Nos quatro jogos seguintes, só precisou de mais quatro pontos para chegar ao mata-mata. E se havia uma força no Pantera de 2009 era em partidas decisivas, especialmente em casa. Já tinham sido três finais e, nas duas que foram perdidas, o Barbalhão não recebeu partidas – diante do Paysandu no primeiro turno e na finalíssima do estadual. Quando esteve em casa, no jogo importantíssimo contra o Remo que decidiu o segundo turno e a vaga no Brasileiro, o mando de campo fez a diferença. Aquele time não sentia o peso dos jogos grandes e, além de tudo, foi amadurecendo ao longo da temporada. Avançou, brilhou, mas também sofreu. Estava pronto para ir ainda mais longe. Assim foi na Série D.


Gênus/RO e Cristal/AP (duas vezes, por conta de regulamento maluco). Foram os adversários das três fases, em ida e volta, que separavam o São Raimundo do acesso à Terceira Divisão. Sempre com boas vitórias em casa e resultados bem administrados fora. Subir, entretanto, não era suficiente para uma equipe que amava jogar decisões. A vítima nas semifinais foi o Alecrim/RN, com o mesmo roteiro. E na final, o Macaé/RJ chegou a vencer o primeiro jogo, em casa, mas depois conheceu de perto a força da torcida santarena. Quase 16 mil torcedores testemunharam a história ser feita. Viram o São Raimundo ser o incontestável primeiro campeão da Série D.


Dois torneios, quatro finais. O Pantera esteve presente em todas as decisões de cada fase do Paraense, foi o time que disputou mais jogos no estadual e teve mais de 60% de aproveitamento. No Brasileiro, foram 29 gols em 16 partidas, disparado o melhor ataque da competição. Chegou no mínimo na final em tudo o que disputou. Deixou o Remo na pior crise de sua história. Há dez anos, o São Raimundo estava no auge. Já na Série C do ano seguinte, o time fez campanha pífia e foi o pior time do torneio. Neste ano, no Paraense, também é a pior equipe do campeonato e luta contra o rebaixamento. Olhar para trás, quem sabe, pode trazer a motivação e as reflexões necessárias para uma retomada do caminho de glórias. O São Raimundo merece; e precisa.

 

#Pará #História


#SãoRaimundo #SérieD #CampeonatoParaense #Remo