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Lamar Jackson e Deshaun Watson: trajetória injusta

Enfim reconhecidos, atletas têm desconfiança desproporcional, como quarterbacks negros.


A mídia esportiva, e a dos Estados Unidos em particular, adora utilizar analogias para criar narrativas grandiosas. Com o futebol americano, esporte mais popular no país do tio Sam, não seria diferente – pelo contrário, o exagero é até maior. Há um teor quase militar em cada jarda que a bola oval avança, fruto de um tipo muito específico de identidade patriota. Símbolo máximo do esporte nos últimos anos, o New England Patriots é a pintura perfeita da América branca, cristã e vencedora. E neste ano, as duas únicas derrotas do time até aqui foram infligidas por talentosíssimos jogadores negros na posição de quarterback, a principal do esporte.


Não basta ser o maior campeão dos últimos anos, toda a narrativa ao redor do timaço da Nova Inglaterra se dirige para a dramática curva "hollywoodiana" que o público tanto gosta. Lá atrás, o garoto Tom Brady, esquecido no Draft por quase todos, escolhido em uma posição irrelevante, toma o lugar de um ídolo para liderar o time ao seu primeiro título e à consequente dinastia. Ao lado deste jovem prodígio, o experiente técnico Bill Belichick, que já se mostrava competente em outras equipes, trai um rival para assumir o posto e não só levanta a taça com o pupilo, mas também se torna o mais vencedor de todos os tempos.


Quem possibilita a reunião dos dois homens é Robert Kraft, um self-made man, como os americanos dizem. Começando "do nada" com a empresa de papel de seu padrasto e a transformando no maior conglomerado do ramo nos Estados Unidos. Detentor de uma fortuna avaliada em 6,6 bilhões de dólares, o magnata é amigo pessoal do presidente Donald Trump.


E do outro lado desta narrativa, pelo menos na temporada atual, os dois homens que lideraram seus times nas vitórias sobre os Patriots: Lamar Jackson e Deshaun Watson.


Os dois QBs se encontraram durante a temporada, com vitória do time de Jackson, e trocaram camisas e gentilezas. (Reprodução/Twitter Baltimore Ravens)

Oriundo de Pompano Beach, na Flórida, Lamar Jackson foi selecionado na 32ª escolha pelo Baltimore Ravens em 2018. A ideia: ficar na reserva de Joe Flacco e se desenvolver, para assumir após a aposentadoria do veterano. Uma lesão contra o Pittsburgh Steelers, porém, tirou Flacco do restante da temporada e abriu caminho para que Jackson liderasse os Ravens ao título de divisão e consequentemente à pós-temporada. Ele se tornou o mais novo quarterback a conseguir tal façanha.


Ainda assim, Lamar passou por um verdadeiro carrosel de críticas exageradas. Foi chamado muitas vezes de "corredor que lança", pela forma como, muitas vezes, usava seu físico para conquistar jardas, inclusive em jogadas desenhadas para isso. A desconfiança era desproporcional e não foi preciso apenas uma bela campanha como calouro, mas Jackson só foi virar um sério candidato ao prêmio de melhor jogador desta temporada após vencer... Os Patriots. Para alguns, o garoto praticamente não tinha o direito de errar; e ele quase não errou mesmo.


Direto de Gainesville, na Geórgia, Deshaun Watson tem uma história um pouco diferente. Selecionado no Draft de 2017, com a 12ª escolha, Watson já chegava com a obrigação de ser o quarterback titular do Houston Texans, uma franquia que sempre teve pouquíssima estabilidade na posição – entre 2013 e 2017, foram 13 mudanças de titularidade. Mas o garoto foi bem mesmo como calouro. Infelizmente, na segunda metade da temporada, rompeu o ligamento cruzado anterior, encerrando o ano mais cedo. Ele voltou melhor, no entanto, levando os Texans aos playoffs em 2018. E agora, o ano atual não poderia ser melhor para o jovem QB, que parece só melhorar a cada semana.


A estrada para a glória é longa, esburacada e íngreme, além de obviamente mais dura para um atleta negro na posição. No ano passado, após um jogo em que Watson cometeu erros, um torcedor chegou a comentar que "quando se precisa de precisão, não dá para contar com os quarterbacks negros". Já passou da hora de permitir que jovens atletas possam pavimentar um caminho menos sofrido. Para cada Joe Flacco e Eli Manning roubando holofotes, até pela mediocridade de suas carreiras, há garotos talentosos capazes de fazerem muito mais. O que não se pode fazer, como mídia e como público, é cobrar ainda mais deles só pela cor de suas peles.

 

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