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Lentamente, uma dura realidade chega a Bilbau

Ideológico Athletic, principal clube do País Basco, começa a sofrer para ser competitivo.


Apenas três clubes espanhóis nunca disputaram a Segunda Divisão do país. Dois deles são as óbvias potências mundiais Barcelona e Real Madrid. O outro é o Athletic Bilbao, equipe basca tradicionalíssima, mas nem de longe tão vitoriosa quanto os colegas com os quais divide esta lista honrosa. O Athletic, assim como o Barcelona, é historicamente (e atualmente) conhecido por suas categorias de base – as canteras. E assim como o rival catalão, o clube basco também almeja carregar consigo parte da afirmação identitária de toda uma comunidade que não possui um país reconhecido. Entretanto, as similaridades entre as duas instituições são também as diferenças. Pois o Barça, até por seu tamanho e relevância, leva o seu suposto nacionalismo para o mundo. E o Athletic sempre esteve mais preocupado com o desenvolvimento do próprio quintal.


Em 1912, teve início no clube uma política de não empregar jogadores que não fossem do País Basco. Nos 106 anos desde então, é claro, houve modificações. Aos poucos, o clube admitiu atletas de origem basca, mas que tivessem nascido em outros países; e hoje, a regra autoimposta também inclui jogadores de outras origens, mas que tenham sido criados na região e se desenvolvido nas canteras de times bascos. A filosofia foi um ponto central do crescimento do clube, de diversos grandes jogadores e do futebol do País Basco como um todo. Nos anos 1980, o Athletic (83 e 84) e a arquirrival Real Sociedad (81 e 82) foram ambos bicampeões espanhóis consecutivamente.


A rival, inclusive, manteve política de contratações muito similar até 1989 – e um dos motivos para quebrá-la foi justamente o peso da órbita do Athletic, que atraía muito cedo quase todas as futuras estrelas da região, deixando a adversária quase incapaz de competir se não expandisse suas fronteiras. Ainda assim, as categorias de base seguem sendo o núcleo dos times bascos. É também com elas que outros dois clubes, Deportivo Alavés e Eibar, têm crescido muito nos últimos anos.


O novo San Mamés é um pilar da estrutura que o Athletic tanto prioriza, em que a modernidade não precisa solapar a identidade. (Divulgacão/Athletic Club)

Hoje, as quatro principais equipes do País Basco estão na Primeira Divisão espanhola. Em 2017, o Alavés foi vice-campeão da Copa do Rei, e na temporada atual está na parte de cima da tabela, lutando por vaga nas competições europeias. Nesta última segunda-feira (17), inclusive, Alavés e Athletic se enfrentaram, com empate sem gols. Dentre os quatro rivais, o clube de Bilbau é o pior colocado e luta contra um inédito rebaixamento pelo segundo ano consecutivo, após se acostumar ao topo da tabela. Na edição passada, conseguiu se livrar com tranquilidade, mas terminou o campeonato na sua pior posição em mais de dez anos: na temporada 2006/07, a equipe escapou da queda na última rodada, por um ponto.


Quanto mais globalizado fica o futebol, menos fica o Athletic, e o clube sofre – não necessariamente por sua filosofia, mas pela dificuldade de sincronizá-la com as dos atletas, cada vez menos propensos a ficar na equipe por anos e anos. Se o sucesso em Bilbau é medido de forma diferente de outros clubes – pois não querem apenas vencer, mas vencer do seu jeito – a frieza dos resultados mostra que o Athletic vive momento muito delicado. E está cada vez mais difícil se manter competitivo.


Há pouco mais de seis anos, o time de Bilbau foi vice-campeão da Copa do Rei e da Liga Europa sob o comando de Marcelo Bielsa. No torneio continental, deixou pelo caminho times como PSG (na fase de grupos) e Manchester United (nas oitavas-de-final). Na final, derrota acachapante por 3 a 0 diante do rival Atlético de Madrid. Referências daquela equipe, hoje Javi Martínez está no Bayern de Munique, Ander Herrera no Manchester United e Fernando Llorente no Tottenham. Até aí, é normal clubes médios cederem seus destaques a gigantes de maior poder financeiro. Entretanto, reinvestir este dinheiro tem sido um problema crescente para o time de Bilbau. Com os clubes da região crescendo e conseguindo segurar suas estrelas – além de não terem a mesma "limitação" do Athletic –, o próprio mercado disponível para o clube entrou em recessão. Além disso, a reposição interna enfraquece: o zagueiro Laporte e o goleiro Kepa, revelações que poderiam ajudar a formar a espinha dorsal da equipe por algum tempo, foram embora com apenas 23 anos para Manchester City e Chelsea, respectivamente.


A soma dos dois fatores significa que o Athletic vive um dos momentos financeiramente mais prósperos de sua história; mas não sente isso dentro de campo. Nos últimos sete anos, o clube arrecadou aproximadamente 221 milhões de euros apenas com transferências. E conseguiu realocar apenas cerca de 87 milhões em contratações. É claro, o Athletic não para nunca de investir em sua estrutura. Mesmo se passar momentos difíceis, há um alicerce fortíssimo construído para que a instituição possa se reerguer, como as instalações de sua cantera. Além disso, o clube recentemente reconstruiu seu estádio – mas com mais de metade dos custos bancados pela administração pública. Ou seja, a situação é complicada, inclusive pensando no mercado de inverno, já que o time de Bilbau precisa de reforços imediatamente, na luta contra a queda.


No último campeonato, o Athletic se salvou ficando apenas duas posições acima da zona de rebaixamento, mas com uma distância confortável de 14 pontos para o Deportivo La Coruña, melhor entre os rebaixados. Nesta temporada, a luta para escapar promete ser bem mais acirrada.

Os problemas vão muito além das quatro linhas, mas é dentro delas que o futebol se resolve. E no início deste mês, o técnico Eduardo Berizzo foi demitido do cargo, em rara movimentação da diretoria. Aliás, desde aquela temporada difícil em 2006/07 que o Athletic não demitia um treinador no meio do campeonato. Josu Urrutia, por exemplo, presidente do clube até recentemente, nunca havia exonerado um técnico em toda a sua gestão – estava no cargo desde 2011. Ou eles cumpriam seus contratos até o fim, ou iam embora por conta própria, como Ernesto Valverde, contratado pelo Barcelona em 2017. Quem chegou para tentar apagar o incêndio foi o treinador do time B do Athletic, Gaizka Garitano; filho de Ángel Garitano, auxiliar técnico na reta final daquela escapada por um fio em 2007. Recentemente, o novo comandante também levou o Eibar até a Primeira Divisão. Enquanto os outros clubes bascos crescem, o Athletic se vê estagnado.


Mesmo nos piores momentos, no entanto, questionar o que é visto como a identidade da instituição não entra em pauta. Seria até tentador, pois o Athletic faria quase tudo para fugir da Segunda Divisão. Mas apenas quase tudo. Em entrevista recente, o próprio Urrutia disse que a administração nunca considerou abandonar a histórica política de contratações. O agora ex-presidente comanda uma comissão gestora que está à frente do Athletic até as eleições de 27 de dezembro – nas quais não vai concorrer. E nenhum dos candidatos sequer cogita mudar o que consideram a essência do clube.


Unai Bustinza, ex-jogador da equipe e atualmente no Leganés, declarou no início deste mês que prefere "que o Athletic passe uma temporada na Segunda Divisão do que mude sua filosofia". Cada vez mais, a chance de deixar o seleto grupo dos incaíveis é real. Mas certamente muitos pensam como ele. E concordando ou não, é respeitável a atitude de valorizar os princípios mais do que as vitórias. Ou melhor, de considerar que atender aos seus princípios, sejam eles quais forem, já é em si uma vitória. Entretanto, caso siga nesta tendência, uma mudança logo pode ocorrer no time de Bilbau. E não será de filosofia, mas de patamar.

 

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