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"Não podemos comprar ninguém": a lógica do Arsenal

Em futebol inflacionado, gigante inglês tem dono bilionário, mas autolimita seus investimentos.


Na Europa, já é comum há algum tempo clubes de futebol terem donos, não presidentes. Como uma espécie de deferência ao formato clássico de administração, muitos até fazem questão de que o nome oficial do cargo continue sendo "presidente", mas não faz diferença alguma: eles são mandatários com poderes de proprietários, não de administradores temporários. Com isso, as peculiaridades de gestão aparecem, dependendo do contexto. Se um clube é adquirido em condições de risco, a pressão se individualiza cada vez mais na figura do dono, que precisa de sucesso imediato. O ego também faz com que os times virem extensões da popularidade do chefão: quanto mais adorado, maior o aporte financeiro; e caso contestado, a corda aperta. Por outro lado, se não ganhar agora, não tem problema – não há um mandato que vai acabar em alguns anos. O futebol envolve tanto dinheiro hoje em dia que clubes são comprados, também, como investimento.


Um destes casos, notório na última década, é o do Arsenal. O tradicionalíssimo clube londrino é comandado pelo bilionário americano Stan Kroenke – o mesmo dono do Los Angeles Rams, franquia de futebol americano que perdeu o Super Bowl para o New England Patriots, no último domingo (3). Kroenke faz parte do cotidiano do Arsenal desde 2007, quando comprou suas primeiras ações do clube. Desde então, foi gradualmente aumentando sua participação, até se tornar o principal acionista em 2009 e, já em 2011, ser dono de mais de 60% do time. No ano passado, pouco antes da temporada 2018/19 começar, o empresário comprou as últimas ações necessárias para se tornar o único proprietário do Arsenal, o sexto clube mais valioso do mundo. O próprio Kroenke está entre as 60 pessoas mais ricas do planeta. E ainda assim, em janeiro, o técnico do Arsenal, Unai Emery, declarou: "não podemos comprar ninguém, só emprestar".


Emery chegou para substituir um técnico que estava há 22 anos no cargo e era totalmente ligado à filosofia do clube: mas muitas coisas não mudaram e não devem mudar. (Aleksandr Osipov/Creative Commons)

É difícil de entender. Mas os gunners não são os únicos. O Southampton, embora em outra prateleira, funciona da mesma maneira. Em uma realidade mais parelha, há a Roma: assim como o Arsenal, é uma agremiação também comandada por empresário estadunidense e, via de regra, gerida de forma autossustentável. Ou seja, só sai o dinheiro que entra. Não há nada de errado com o modus operandi, muito pelo contrário. E o magnata Kroenke, do Arsenal, não costuma injetar um centavo de sua fortuna na equipe, apenas busca ampliar as receitas e valorizar a instituição no mercado financeiro. Só que é futebol; e balanço de contas não é gol. Mal comparando, Kroenke administra o clube inglês como um investidor imobiliário – condizente, já que ele veio do setor: uma vez comprada a propriedade, ela precisa apenas não dar prejuízo até o momento de ser vendida, quando estiver valendo muito mais.


O ideal para qualquer gestão é não gastar mais do que arrecada. Quanto a isso, não há qualquer dúvida. Investir o que não tem, inclusive, já deixou financeiramente nus diversos grandes clubes pelo mundo, inclusive no Brasil. No entanto, às vezes, é preciso gastar dinheiro para fazer dinheiro, e uma das formas do Arsenal arrecadar e se valorizar mais é disputando e ganhando títulos relevantes – algo que não ocorre há tempos. Para isso, teria que competir no mercado e no campo. Clubes brasileiros como Vasco e Botafogo também precisam, todos os anos, contratar uma penca de jogadores por empréstimo ou de graça; e fica difícil justificar que um time com o poderio econômico do Arsenal esteja com esta mesma filosofia de contratações por conta de restrições financeiras. Além disso, o próprio cenário é inóspito: os rivais Manchester City e Chelsea receberam, respectivamente, 1,3 bilhão e 520 milhões de aporte dos seus donos na última década.


O Manchester United, cujos donos também são notórios por investir pouco do próprio capital na equipe, recebeu injeção de pouco menos de 320 milhões nos últimos dez anos. Diferença considerável, já que o Arsenal teve zero. Além disso, mesmo gastando apenas o que arrecada, a distância também é grande. O United é o clube mais valioso do mundo e rendeu 1,3 bilhão com as próprias pernas na última década, comparado aos 750 milhões do Arsenal. Sempre em libras, é claro.

Basicamente, o Arsenal fez uma escolha ideológica: vai tentar competir do seu jeito, sofrendo se for necessário, mas sem jogar o jogo que os concorrentes jogam. Arriscado, mas é possível, inclusive, que os gunners tenham um futuro muito mais consistente do que os adversários por conta disso; só que essa é uma promessa que já está ficando velha e o tal futuro nunca chega. Primeiro, eram as dificuldades por conta da construção do estádio, mas com ele tudo se ajustaria. Aí era preciso ter paciência, afinal a dívida era alta. Depois, a culpa era do ex-técnico Arsène Wenger e de sua filosofia – que de fato teve responsabilidade em inúmeros fracassos recentes. Mas a declaração do atual treinador deixa no ar que, pelo menos em parte, o problema ainda vive. Após muito arrecadar, o Arsenal até investiu, quebrando três vezes a barreira dos 100 milhões de euros em contratações nas últimas cinco temporadas. Agora, parece que o ciclo se reiniciou novamente.


O empréstimo que Unai Emery e o departamento de futebol do Arsenal conseguiram, na janela de inverno, acabou sendo de Denis Suárez, meio-campista do Barcelona. As amarras financeiras, em especial com relação aos altos salários (que na Inglaterra são semanais) dos reforços recentes, também tiveram um papel na perda de Aaron Ramsey, que assinou pré-contrato com a Juventus e deixará o clube inglês em junho. Para voltar a gastar, inclusive, o Arsenal precisará se desfazer de outros jogadores. Desde 2002, o clube não fecha um ano fiscal no vermelho, e o lucro dos últimos três anos foi de 65 milhões. No balanço de 2017, a reserva financeira chegava aos 180 milhões. É a epítome de um time rico e avarento. Há 15 anos o Arsenal não levanta um troféu que não seja a Copa da Inglaterra, cada vez mais prêmio de consolação. Soa cruel, mas a chave para o futuro dos gunners segue a mesma dos últimos tempos: paciência, e muita.


 

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