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Novos e velhos ricos: as hegemonias europeias atuais

Por todo o continente, equipes dominam seus campeonatos nacionais como pouco se viu.


Nas últimas semanas, alguns clubes europeus encaminharam, com muitas rodadas de antecedência, os títulos nacionais em seus países. O principal destaque, claro, é a Juventus, por pertencer a uma das grandes ligas. Após vencer o Milan de virada (2 a 1) e ver o Napoli apenas empatar com o Genoa (1 a 1), o time de Massimiliano Allegri agora precisa de um empate para garantir o título matematicamente. Um mísero ponto dos 21 ainda em disputa, uma vez que faltam sete rodadas para o fim da Serie A. No próximo sábado (13), a Juve encara a pequena SPAL, que luta contra a queda. A probabilidade de Cristiano Ronaldo e seus companheiros comemorarem o scudetto com um mês e meio de antecipação é alta – e francamente, assustadora. O título do Campeonato Italiano nunca foi definido mais de cinco rodadas antes do fim, assim como nunca antes uma equipe vencera mais de cinco títulos seguidos; e a Juventus está chegando ao seu oitavo.


Quebrar recordes é pouco para a alvinegra nesta década. É necessário destruí-los. A Coppa Italia, por exemplo, também não havia sido conquistada pela mesma equipe mais de duas vezes seguidas; a Juve já levou quatro e busca a quinta. Não é a única, entretanto, inclusive nas grandes ligas. O Bayern de Munique está longe de ser campeão alemão, em disputa que deve ser acirrada com o Borussia Dortmund até o fim, mas o domínio recente é similar: seis títulos seguidos e atrás do sétimo. Na França, uma combinação de resultados pode selar o título do Paris Saint-Germain no próximo domingo (14) – será o sexto em sete anos, só com o surpreendente Monaco quebrando a hegemonia por conta de ataque avassalador, em 2017. O PSG também foi o primeiro tetracampeão consecutivo da Copa e está na final mais uma vez. Na década de 2010, certos campeonatos na Europa passaram sistematicamente a "não ter nem graça".


Ronaldo celebra gol da Juventus, cena mais do que comum na temporada: a comemoração só deve se ampliar com a chegada do título, que está muito próximo. (Divulgação/Juventus FC)

Há, é claro, uma diferença gritante entre Juventus (ou mesmo Bayern de Munique) e o PSG. Peso, história, tamanho e até mesmo títulos. Se isso diminui ou aumenta os feitos de cada um, depende do ponto de vista. Até para uma gigante antiga como a Juve, maior campeã de seu país, um período hegemônico como o atual é inédito; e o mesmo vale para o Bayern. No caso do PSG, a situação é um pouco diferente. Em 2013, o clube possuía tantas taças da liga quanto o Sochaux, atualmente em sua quinta temporada consecutiva na segunda divisão, e que o Sète, equipe da quarta divisão. Após ser comprado pelo ex-tenista e empresário catari Nasser Al-Khelaifi, o time explodiu em relevância. E, assim como os velhos ricos, não é o único. A Bundesliga austríaca atualmente é dominada pelo antigo Áustria Salzburgo, atual Red Bull Salzburgo, comprado pela empresa em 2005. Por motivos diferentes, a Europa vê várias das suas ligas em crise de competitividade.


Assim como o PSG, o Salzburgo havia tido apenas um curto período de glórias, nos anos 1990, antes de ser comandado pela multinacional. Desde então, venceu nove dos últimos 12 Campeonatos Austríacos, incluindo o penta seguido atual – que está para virar hexa. O time nunca ficou abaixo da vice-liderança da liga desde 2005, além de ter jogado seis (e vencido cinco) das últimas sete finais de Copa da Áustria, da qual também já foi tetra consecutivo. Basicamente, os campeonatos que se mantêm muito competitivos são os que possuem vários super-ricos e os que não possuem nenhum. Na primeira categoria, por exemplo, se encaixam as ligas Inglesa e Espanhola. Não por acaso, 11 dos últimos 14 títulos de Liga dos Campeões foram para clubes destes países, com mais oito vice-campeonatos. A última vez que a Liga Europa foi vencida por uma equipe de fora da Espanha ou da Inglaterra foi em 2011. É quase natural que os poderosos queiram uma Superliga.


Históricas hegemonias recentes vêm de todos os cantos do continente. Até 2016, os croatas do Dinamo Zagreb, clube mais bem-sucedido do país, vinham de 11 títulos consecutivos. O recordista da Europa, porém, está na pequena Gibraltar: o Lincoln conquistou 14 ligas seguidas, sequência quebrada em 2017.

A Juventus é administrada pelos donos da Fiat, o Bayern é um clube de 300 mil sócios, o PSG foi comprado por um bilionário e o Salzburgo por uma empresa de energéticos. As origens e os níveis da riqueza de cada um são muito diferentes. Colocá-los no mesmo balaio e simplificá-los como "o problema" seria raso e injusto. Porém, é impossível negar a crise de competitividade que assola os rincões do futebol europeu. A questão é apenas mais complexa e delicada do que qualquer Fair Play Financeiro pode dar conta – especialmente o atual, bastante falho, assunto para outro texto. E está em todos os níveis. The New Saints (hepta consecutivo no País de Gales), Ludogorets (também hepta na Bulgária) e BATE Borisov (13 títulos bielorrussos seguidos), por exemplo, foram todos adquiridos e reestruturados por investidores para serem potências nacionais. O salto continental é mais difícil. Mas o problema da competitividade está lá, pulsando.


Da mesma forma, há equipes tradicionais muito bem administradas, como o APOEL (hexa seguido no Chipre) e o gigante escocês Celtic, que há duas semanas venceu o maior rival Rangers – que por outro lado, chegou a falir em 2012 – e caminha a passos largos para seu oitavo título consecutivo. Isso para não falar de um tipo diferente de hegemonia, que também já se viu muito na história do futebol: times que se tornaram dominantes pelo grande trabalho de um treinador, como o Qarabağ de Gurban Gurbanov (penta seguido no Azerbaijão). Aos campeões, os merecidos louros; sempre. Mas ser pouco desafiado na França não contribui para as falhas continentais do PSG? É suficiente o Celtic levar tudo na Escócia e não sonhar com os anos 1960, em que disputou duas finais europeias e ganhou uma? Até quando o New Saints vai se contentar com título galês sem nunca ter jogado fase de grupos na Europa? Ver o clube crescer é bom. Ver o futebol crescer é melhor.

 

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