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O efeito dominó do novo Mundial da FIFA

Mudança afeta estrutura global e calendário do futebol, em especial europeu, que se opõe.


Na última sexta-feira (15), a FIFA anunciou o novo Mundial de Clubes, que substituirá a Copa das Confederações no calendário do futebol global. No entendimento da autoridade máxima do futebol, ambas as competições eram deficitárias; o que faz sentido, considerando que a história da Copa das Confederações se encerra, por exemplo, com a campeã derradeira (Alemanha) tendo conquistado o torneio com o time reserva. No caso do Mundial, duas das últimas finais não tiveram o tamanho de mercado que a FIFA gostaria, com as eliminações precoces de River Plate e Atlético Nacional. A vontade política de mudar o formato da competição que decide o campeão do Mundo não é nova, e o torneio já passou por inúmeras tentativas de aperfeiçoamento. Desta vez, no entanto, a FIFA bancou sua proposta, mesmo com dura oposição da UEFA e da Associação dos Clubes Europeus (ECA). E o cenário do futebol promete mudar ainda mais a partir de 2021.


Os 24 clubes serão separados em oito grupos de três, com os líderes de cada chave passando para o mata-mata, em modelo clássico, a partir das quartas de final. Este é o novo formato. E o Mundial de 2021 ocorrerá entre junho e julho, com o Campeonato Brasileiro em andamento. Ainda não estão definidos os representantes da América do Sul, mas parece claro que ao menos o Grêmio, campeão continental em 2017, estará lá. Isso paralisaria a Série A? Só jogos do tricolor seriam reagendados? Muitas perguntas, poucas respostas. Ainda é cedo, no entanto. E a repaginação do torneio também afetará a Copa Ouro e a Copa Africana de Nações, que ficarão mais apertadas no calendário. Além disso, com o regulamento e a quantidade de seleções ainda indefinidas até mesmo para a principal competição da FIFA, as próprias eliminatórias da Copa do Mundo devem mudar. Isso para não falar da Europa, que promete boicotar o novo Mundial e já tem suas próprias modificações.


Infantino, o homem mais poderoso do futebol atualmente, na coletiva de divulgação do novo Mundial: ato esportivo, administrativo, político e financeiro. (Divulgação/FIFA)

No caso dos europeus, a ameaça parece mais argumentativa do que prática. A ECA, controlada pelos gigantes, é extremamente poderosa e quer uma Liga dos Campeões expandida, portanto vê uma competição de formato parecido, que envolverá muitos dos seus grandes expoentes, como rival. A FIFA queria, inclusive, que metade do novo Mundial fosse europeu, diminuindo a pedida para 8 clubes ao ver a rejeição por parte da UEFA. Se nos outros continentes a preocupação é com a pequena quantidade de vagas e como ela seria dividida, a Europa quer diminuir seu protagonismo para não perder autonomia. ECA e UEFA assinaram, recentemente, um acordo para a definição do futuro dos torneios de clubes com os interesses dos gigantes em mente. Em tese, quaisquer mudanças seriam só após cinco anos, uma vez que os ciclos ocorrem em triênios e o calendário está fechado até 2021, com muitos contratos assinados até 2024. Mas a pressa da FIFA muda tudo.


Não é provável que os europeus de fato fiquem fora do novo Mundial, mas ocorrendo no período das férias no Velho Continente, ele pode ganhar caráter preparatório que a FIFA não gostaria. Afinal, ao contrário das seleções, que após a Copa entram em hiato, os clubes têm uma temporada completa pela frente depois do Mundial. O argumento, por enquanto, defende o boicote à edição inaugural, para considerar participação posterior. Exatamente por conta da impaciência da FIFA. Uma reunião entre ECA e UEFA, ocorrida na última terça-feira (19), já tratou da possibilidade de precipitar as renovações na Liga dos Campeões. Em 2021, estreia a terceira competição de clubes, provisoriamente chamada de Liga Europa 2, medida anunciada em 2018 para agradar as equipes e países de menor expressão. Seria uma ajuda na transição para diminuir o impacto de uma nova Liga dos Campeões, mais elitista e menos inclusiva, em 2024.


Uma das vontades da ECA é que os jogos da Liga dos Campeões ocorram aos fins de semana, para ampliar a audiência, especialmente fora do fuso horário europeu. Essa é, inclusive, uma das mudanças que podem ser negociadas imediatamente, já para 2021, por não alterar o regulamento. O objetivo é que nas fases agudas, a partir das quartas de final, o torneio tenha jogos aos sábados o quanto antes.

Agora, tudo pode mudar mais cedo. É o caso inclusive da Copa do Mundo. O inchaço de 32 para 48 seleções está confirmado para 2026, o que permite às autoridades um tempo para planejar as novas eliminatórias. Porém, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, está rodando o planeta em busca de aprovações para antecipar o novo formato já para a Copa do Catar, em 2022. Isso significaria uma mudança radical e, ao mesmo tempo, a quase impossibilidade de fazê-la com ponderação. O sorteio geral para as eliminatórias, segundo o calendário da FIFA, está marcado para julho. Caso haja inchaço, o tempo é curto para ajustar formatos. Se a CONMEBOL, por exemplo, passar a classificar 7 seleções, no regulamento atual, as eliminatórias perderiam competitividade. Seriam 70% de qualificados e rapidamente, com poucos jogos, a competição se tornaria pouco mais que uma série de amistosos – algo que sequer agrada a própria FIFA.


Para quem acompanha os bastidores do futebol, os últimos anos têm sido uma montanha-russa, especialmente na queda de braço entre FIFA e UEFA. A modificação de uma gera resposta da outra, seja negativa ou positiva. A nova Liga das Nações, na Europa, virou exemplo que a FIFA deseja ver replicado no Mundo, mas deixou cicatrizes na entidade máxima do futebol, por deixar seleções importantes menos disponíveis para amistosos lucrativos. E o novo Mundial, desta vez, faz suas próprias feridas na organização do futebol europeu. A América do Sul, que também passa por mudanças, com expansão recente da Libertadores e um ciclo novo para a Copa América a partir de 2020, parece em compasso de espera. Entretanto, decisões terão que ser tomadas logo. Se o mundo do futebol vem vivendo, aos poucos, uma reconfiguração de estruturas, o cenário a partir de 2021 promete uma verdadeira revolução. As únicas certezas são as incertezas.

 

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