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O lado cruel do calendário brasileiro já em agosto

Indecisão era ruim, mas agora o futebol nacional se divide; e muitos estão contra a parede.


Após muita pressão, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) oficializou datas para as principais competições do calendário nacional em 2020: as quatro divisões do Campeonato Brasileiro. O novo cronograma, totalmente modificado pelos meses de paralisação por conta da pandemia, não respeita o artigo nono do Estatuto do Torcedor, no caso dos torneios que ainda não foram iniciados – para os que estão em andamento, como a Copa do Nordeste, a revisão de tabela não fere a regra. Mas talvez o cenário atual justifique mesmo flexibilidade na lei que prevê divulgação da tabela com no mínimo 60 dias de antecedência. A tabela da Série A saiu na última sexta (10) e abre em 8 de agosto, mesmo dia que começa a Série C, cuja tabela saiu na segunda (13). O cronograma da Segundona veio junto, mas ela abre em 7 de agosto. Só a Série D, também oficializada no mesmo dia, mas começando em setembro, chega perto de dois meses de antecedência.


Até aí, parece inevitável que acontecesse. A questão é a consequência de uma definição nacional do calendário do futebol durante a pandemia. Por um lado, é incontestavelmente positivo; a indefinição recente deixava clubes e, principalmente, famílias em situação de futuro incerto. Bom ou não, haver um norte permite a todos um planejamento mais concreto. Entretanto, uma diferença econômica preexistente mostra, a cada dia que passa, que enquanto alguns celebram a perspectiva de competir, outros simplesmente precisam aceitar que não terão tempo e recursos para se preparar devidamente. E isso vale não só para os torneios nacionais, mas também para os estaduais. Afinal, o roteiro está claro: o Carioca puxou a fila, as datas do Brasileiro chegaram e agora obrigam todas as federações a rebolar para encaixar suas competições, independente do cenário da pandemia. O país se habituou a mais de 40 mil novos casos e mais de mil novas mortes diárias.


A volta imediata, respeitando os protocolos de saúde, divide os clubes do país entre os que têm condições e os que não têm. (Ygor Laurindo/CBF)

O retorno do Campeonato Catarinense, com surto de contaminação após só uma rodada de jogos, já é o primeiro exemplo de uma dificuldade que pode ser ainda pior para o restante do país. Isso, claro, sem mencionar as diferenças dentro de um mesmo torneio: o Pernambucano, por exemplo, tem data marcada de volta para o domingo (19), mas clubes como o Petrolina não tem lugar de treino, devido às restrições. Em Jacobina, no interior da Bahia, a cidade tem até toque de recolher, mas o time tem jogo decisivo contra o rebaixamento, diante do Doce Mel, na primeira rodada de volta, marcada no próximo meio de semana – o Baiano retorna na quarta (22). E não é só: o Imperatriz, clube de Série C que jogou inclusive o mata-mata de acesso à B em 2019, ainda não voltou aos treinos e alega não ter condição para arcar com os custos da testagem dos funcionários para o novo coronavírus. Ah, o Campeonato Maranhense volta daqui a duas semanas.


Em Santa Catarina, o estadual mal voltou e já foi adiado por no mínimo duas semanas, após casos positivos de coronavírus entre os clubes, principalmente a Chapecoense, um dos primeiros a entrar em campo. O técnico do Marcílio Dias e vários jogadores de outros clubes que jogaram também foram diagnosticados com a doença.

Não é fácil montar um quebra-cabeça como este em um país tão grande e distinto, mas os (poucos) exemplos acima já mostram que o problema é profundo. No caso do Imperatriz, ainda houve certa "ajuda", com o jogo diante do Freipaulistano, pelo Nordestão, cancelado; os dois times não tinham mais ambição no torneio. Só que este caso poderia, por exemplo, ocorrer com Remo e Paysandu: o estadual do Maranhão volta em 1º de agosto, mesmo dia do Paraense, e o clube também compete na Série C, que começa uma semana depois. Há outros Imperatriz por aí, tal qual incontáveis Jacobinas e Petrolinas, sofrendo para voltar e sob risco de punição e até desfiliação e extinção dos clubes, caso não consigam. E é bom lembrar: time algum tem culpa do cenário atual, em especial em cidades sob graves restrições, tentando conter o vírus. O Campeonato Cearense foi mais um a voltar, na segunda (13). Quem sabe ele seja mais positivo que negativo.

 

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