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O que os esportes americanos podem ensinar ao VAR

Iniciando no futebol, revisão de vídeo é mais velha e madura nas ligas dos Estados Unidos.


A revisão de vídeo no futebol tem levantado sobrancelhas e questionamentos em boa parte da imprensa, dos atletas, comissões técnicas e torcidas desde o princípio de sua aplicação em ligas de expressão ao redor do mundo. No Brasil, o termo "VAR" nunca esteve tão presente nas mesas redondas esportivas, muito por conta de seu uso acertado em jogos decisivos da Liga dos Campeões ou pelos seus erros em campeonatos estaduais ao redor do país. Mas a verdade é que existem diversos fatores que dificultam a aceitação do auxílio eletrônico no esporte bretão e um dos mais alarmantes é a falta de um padrão a ser seguido. Talvez seja a hora de aprender um pouco com o que os esportes americanos vêm fazendo há alguns anos.


Para trabalhar com um cenário ideal, vamos analisar a liga que foi pioneira na utilização de revisão por vídeo: a NHL. Pois é, não foi o futebol americano que inaugurou o sistema, apesar de ser o esporte que mais o utiliza hoje em dia. A National Hockey League começou a gravar jogadas para análise em 1955, mas na época demorava bastante para que a fita com o lance fosse levada a um árbitro que pudesse analisá-lo, sem pausas ou câmera lenta. Somente em 1967 o maquinário utilizado permitiu alterar a velocidade do vídeo revisado, melhorando sua precisão.


Hoje o hóquei no gelo só revisa jogadas de gol, para não atrapalhar a dinâmica das partidas, mas na temporada 2015/16 uma mudança na forma como a revisão era feita deu mais poder aos times. Antes dessa alteração, apenas o árbitro poderia requisitar a análise, mas agora os técnicos têm direito a um desafio, ao custo de perderem um tempo técnico caso estejam errados.


A NFL ganha facilmente de todas as outras ligas americanas em seu uso do aparato de vídeo para tomar decisões sobre jogadas, apesar de só ter começado a usar a ferramenta na década de 1970 e de testar um sistema para análise quase simultânea em 1985. As regras foram lapidadas em 1992 e pouco mudaram até hoje. Os técnicos têm direito a dois desafios sobre praticamente qualquer jogada, exceto marcações de falta. No futebol americano, todos os lances de pontuação são revisados.


Entender o cenário geral dessas duas ligas já nos fornece alguns aprendizados. A dinâmica do hóquei se aproxima muito mais do futebol com os pés do que seu homônimo americano. Isto pode e deve ser um sinal para que o uso do VAR se mantenha em interferência mínima e objetividade máxima – o que, aliás, está previsto no protocolo da ferramenta. Mas e o basquete e o beisebol nos Estados Unidos? O que podemos aprender com eles?


O centro de revisões da NBA: longe do jogo, mas por dentro de tudo. (Divulgação/NBA)

A NBA começou a utilizar revisão de vídeo na temporada 2002/03 e apenas para questões bastante específicas: extrapolação da posse de bola além dos 24 segundos regulamentares; a regularidade do posicionamento dos atletas em quadra após uma cesta; e se ela realmente valeu três pontos, quando há dúvida. Somente quatro anos atrás a liga de basquete criou uma central de replays, em Nova Jérsei.


Caçula da utilização do vídeo, a MLB entrou no "mundo do VAR" apenas em 2008 e já adotando uma central de replays, mas de uma maneira mais centralizadora. Apenas um juiz acompanha as jogadas e é unicamente dele a decisão sobre o lance, cabendo aos árbitros de campo apenas acatar. Os técnicos têm direito a um desafio por jogo. Caso ele seja bem-sucedido, recebem desafio extra. Em jogadas duvidosas, os árbitros de campo podem, por conta própria, confabular para decidir algo.


Os exemplos das ligas de adoção mais tardia talvez nos passe ainda mais perspectiva sobre o VAR. Uma central de replays não apenas unifica a revisão, como diminui a necessidade de adaptação dos estádios. Não é preciso construir uma sala dedicada às revisões em todos os palcos de um campeonato – como consequência, diminui os custos, que chegaram a ser um grande argumento da CBF, no Brasil, para adiar a aplicação da medida.


Mas talvez o ponto principal seja a objetividade. A utilização da tecnologia apenas em lances de pontuação parece o ideal. "Mas como ficariam os lances de penalidade e impedimento", alguém pode perguntar. Bom, para o impedimento pode ser melhor desenvolvido um padrão, que já até começou, em que o auxiliar apenas sinalize a irregularidade ao final de uma jogada perigosa, permitindo que, caso o gol ocorra, isso passe a ser uma revisão de pontuação.


A penalidade máxima, por sua vez, poderia voltar a ser uma prerrogativa apenas do árbitro de campo, eliminando um dos maiores problemas atuais do VAR, em que os juízes muitas vezes não marcam nada (ou marcam tudo) por medo de serem desmentidos pelo vídeo. Para remediar erros que certamente ocorreriam, como sempre ocorreram, aqui poderiam entrar os desafios para os técnicos. O preço? Talvez uma substituição, já que não há tempo técnico no futebol, ou a incapacidade de substituir por alguns minutos – simplesmente perder uma mudança seria bem salgado, em um futebol que já clama por mais de três substituições por jogo.


A revisão de cartões vermelhos e amarelos também tem entrado muito em debate, mas nestes casos, a verdade é que quase tudo que permeia a punição disciplinar no futebol envolve dose pesada de subjetividade. Não importa tanto se foi decisão de uma ou de 79 pessoas, ainda haverá discussão.


Por fim, acredito que a objetividade e o enxugamento do VAR tendam a facilitar a aceitação da ferramenta, assim como a compreensão dele por parte de quem o aplica. Os exemplos dos esportes americanos mostram caminhos interessantes. Apesar de ser o maior esporte do mundo, o futebol ainda tem muito o que aprender.

 

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