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O tuíte da discórdia que está afligindo a NBA

Dirigente dos Rockets, Daryl Morey comentou sobre a China e Hong Kong, causando furor.


Em tempos de capitalismo tardio, não é surpresa para ninguém que o dinheiro seja o verdadeiro responsável por qualquer tomada de decisão, em diversas camadas da sociedade. Porém, a vida também é feita de coisas importantíssimas como felicidade, moral e ética. Mas o que fazer quando uma afirmação precipitada põe em jogo todo um modelo de negócio e vai gerar perda financeira independente da decisão a ser tomada? Esta é a sinuca de bico em que a NBA se encontra hoje.


Tudo começa com um simples tuíte de Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets. Tendo em vista os crescentes protestos que vêm acontecendo em Hong Kong, Morey decidiu se manifestar em suas redes sociais: postou uma foto do símbolo dos manifestantes da ilha chinesa com os dizeres "lute pela liberdade, fique ao lado de Hong Kong". A postagem foi rapidamente apagada, seguida de um pedido de desculpas. Morey disse ter "externado uma opinião baseada em uma interpretação de um evento complexo". Não foi preciso mais que isso para que a controvérsia atingisse a NBA como um todo.


Na última segunda-feira (7), a Associação Nacional de Basquete soltou uma nota oficial para se distanciar da declaração de Morey. "Nós reconhecemos que o ponto de vista expresso pelo gerente dos Rockets, Daryl Morey, ofendeu profundamente nossos amigos e fãs chineses, o que é lamentável. Embora Daryl tenha deixado claro que seu tuíte não representa os Rockets ou a NBA, os valores da liga apoiam que um indivíduo se elucide e divida sua opinião em um assunto importante para ele. Nós temos muito respeito pela história e cultura da China e esperamos que os esportes e a NBA possam ser usados como uma força unificadora que abra caminho para essas divergências culturais e possa unir as pessoas", afirmava a nota.


Até aí parece uma questão bem simples: um engravatado comete um erro que respinga na liga, ela se desculpa e tudo segue na normalidade. Por que então a situação está dando o que falar no noticiário esportivo americano?


A China é uma das maiores consumidoras da NBA no mundo. Hoje, cerca de 300 milhões de chineses são praticantes do esporte de bola ao aro, quase que o número total de habitantes dos Estados Unidos. Tencent, a empresa responsável pelas transmissões do basquete americano no país asiático, recentemente assinou uma extensão de contrato de 1,5 bilhão de dólares. Como desgraça pouca é bobagem, o Houston Rockets não é um time qualquer, mas a equipe mais querida na República Popular da China, muito por conta do jogador Yao Ming, que fez sua carreira profissional na equipe do Texas.


Daryl Morey, dirigente dos Rockets e pivô da polêmica que movimenta a pré-temporada da NBA. (Divulgação/NBA)

O problema se torna ainda maior por conta da situação em que todas essas declarações foram dadas. Colônia inglesa durante 156 anos, a ilha de Hong Kong voltou ao domínio chinês no ano de 1997. Por conta de mais de um século sob outro poder vigente, a cultura honconguesa é bastante oposta à chinesa, tanto em quesitos políticos como sociais. Os recentes protestos se devem às mudanças na lei de extradições impostas pelo governo chinês sobre a ilha. Depois de um século sob outro regime, Hong Kong vem sendo assimilando as leis do continente para evitar um choque de realidade com a população, algo que deve ser feito em sua totalidade até 2047.


Qualquer manifestação pró-Hong Kong é vista como uma atividade que fere a soberania chinesa e gera todo um debate sobre as liberdades individuais no país mais populoso do mundo. O caso da NBA chama a atenção porque a liga se recusa a fazer um pedido formal de desculpas, mas ao mesmo tempo tenta não ofender os chineses.


Em 2020, a China deve ultrapassar os Estados Unidos como maior mercado de varejo do mundo, fazendo então com que o país seja mais atraente que o mercado americano para diversas marcas. O problema é que enquanto isso acontece, produtos americanos ficam em cima do muro sobre se queimar com o maior consumidor do mundo ou com seu país de origem.


Claro que tudo piora com a crescente tensão entre os dois países desde a eleição de Donald Trump para o cargo de presidente. A guerra comercial com a China afetou grandes empresas como Apple, Amazon e agora parece ter chegado ao mercado esportivo.


A Tencent já declarou que não transmitirá os próximos dois jogos da pré-temporada de basquete, que teve início na última semana. Todas as empresas chinesas e a Associação de Basquete da China também congelaram relações com a NBA. Materiais e produtos dos Rockets foram retirados das lojas oficiais da Nike. Já a liga americana mantém o calendário de jogos no país asiático, mesmo com a polêmica. Brooklyn Nets e Los Angeles Lakers se enfrentaram nesta quinta-feira (10) e jogarão novamente no sábado (12). Ninguém se manifestou sobre o tema controverso.


Sendo acusada de priorizar o lucro sobre a soberania americana, ou mesmo sobre os direitos humanos, a NBA dorme na cama feita pelo sistema americano atual. Você serve ao dinheiro de quem é o número um, mas isso só funciona até você cair para a segunda colocação.

 

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