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Onde o Fluminense quer menos, poderia haver mais

Presidente tricolor reclama da mobilidade entre as divisões, que devia ser maior no Brasil.


Nesta segunda-feira (26), durante a apresentação oficial do novo técnico do Fluminense, Oswaldo de Oliveira, o presidente do clube carioca tomou uma posição ao mesmo tempo contestadora e cômoda: para ele, "em um campeonato com 20 clubes em um país de dimensão continental, o rebaixamento de quatro equipes é muita coisa". Não por coincidência, o tricolor carioca luta contra a queda em 2019, como tem feito nos últimos anos. Nos arredores da conveniência argumentativa de Mário Bittencourt – advogado que salvou o Fluminense fora de campo em 2013 e hoje comanda o clube –, há um ponto sobre a qualidade técnica da competição. E aí não tem a ver com quedas ou acessos, mas com o número total de clubes: se é para a Série A ser o crème de la crème do futebol nacional, talvez ela tivesse que ter menos clubes. Todo ano, afinal, há times que claramente não conseguem nem chegar perto de ser competitivos.


Inúmeros motivos socioeconômicos, no entanto, são preponderantes para que isso aconteça. As demandas do Fluminense nascem justamente do óbvio abismo que está sendo criado entre os clubes no topo da pirâmide do futebol brasileiro. Mas e o abismo, por exemplo, entre Fluminense e Santa Cruz, Vila Nova, Náutico, Figueirense? O sucesso de competitividade e público que foi, neste ano, o grupo A da Terceira Divisão, totalmente nordestino, pode oferecer um caminho para o futuro. Com exceção do Globo, todos os times tiveram média de pagantes respeitável para a Série C, enquanto o grupo B era carregado por Remo, Paysandu e Juventude. Times como Confiança e o rebaixado ABC chegaram a cerca de 40% de taxa de ocupação. Está muito claro que muito do que tem que "se rever", nas palavras do presidente do Fluminense, no futebol brasileiro, deveria começar de baixo, não de cima. A Elite, por enquanto, está muito bem, obrigado.


O atual presidente do Fluminense, Mário Bittencourt, em conversa com a imprensa. (Divulgação/Fluminense FC)

Tomemos o argumento das "dimensões continentais" do Brasil. Sendo este o parâmetro, na verdade seria necessário mais mobilidade entre as divisões. Mais quedas, mais acesso, talvez até mais times. O ponto principal do tamanho colossal do país, entretanto, está no modelo. Uma Série B feita aos moldes da Série A, por exemplo, interessa aos clubes grandes que caem e podem manter o mesmo modelo de planejamento. Nem na Inglaterra, que é menor que o estado de São Paulo, a Segunda Divisão tem a mesma quantidade de clubes que a Primeira: são quatro a mais. Mais engajamento, mais rodadas, mais jogos – pensando também que times de Série B têm menos torneios paralelos para arrecadar. Na Itália, menor que o Maranhão, a Serie C tem 60 clubes divididos em três grupos regionalizados de 20. Calendário para o ano todo e até mesmo uma Coppa paralela disputada por cerca de metade das equipes da Terceira Divisão.


O tamanho do Brasil, é claro, traz outra questão: a dificuldade e o custo de certas viagens. Até por isso, mesmo com apenas 20 clubes, a Terceira Divisão atual já é regionalizada. Mas se ela tivesse, por exemplo, 45 equipes ao invés de 20, divididas em três grupos de 15, o calendário de muitos clubes já seria expandido com pouca mudança na logística de cada região. Haveria mais jogos, portanto mais viagens, é claro, mas o campeonato também movimentaria mais rincões do país e seria potencialmente melhor, mais atraente e mais representativo. Um grupo de 15 em 2019, por exemplo, teria os dez nordestinos do grupo A mais Remo, Paysandu, Luverdense e Atlético/AC, além de alguma outra equipe vinda da D. Uma Série B nos moldes da Elite, mas expandida, com 24 ou 26 times, poderia trazer mobilidade interessante. Chegar à Série A tem de ser difícil, mas sonhar com ela deixaria de ser quase impossível para alguns.


O fortalecimento das divisões inferiores, com mobilidade, calendário e até mesmo uma cultura própria, não atrelada à Elite, faria bem a toda a pirâmide do futebol brasileiro, incluindo a Série A, que pode e deve ser um espaço de excelência no futebol nacional. E hoje em dia, nem isso consegue ser.

Uma Série C com três grupos poderia classificar de forma direta à Segundona os três líderes, além de realizar um baita playoff entre os vice-líderes e terceiros colocados por mais uma ou duas vagas. Quatro grupos de 10 poderiam ter o mesmo efeito, embora não ampliassem o calendário atual. Com mais times, é natural mais acessos e mais descensos, em especial com uma Quarta Divisão também ampliada e regionalizada. Eventualmente, até mesmo uma Série E poderia dar calendário para mais uma parte da enormidade de clubes sedentos disso pelo país. São mais de 700 equipes profissionais, afinal, e muitas delas profissionais só no nome, por obrigação, para atender as exigências da CBF e das federações. Talvez cinco ou seis acessos pudessem ocorrer da Terceira para a Segunda Divisão, enquanto da Quarta para a Terceira... Tomando novamente a Itália como exemplo, lá são 166 times lutando por 9 vagas. Parece justo, dentro da pirâmide.


Eventualmente, como deseja o presidente do Fluminense, seria até possível que apenas três clubes caíssem da Elite para a Segundona. Não é um absurdo. O absurdo é a lógica da Série A ser aplicada em todas as divisões no Brasil e isso ser considerado normal. Até mesmo na Série D atual, que tem 68 equipes, quatro acessos é pouco. O país com mais times profissionais no Mundo também é o país que menos proporciona caminhos para o crescimento deles. Fácil não é, mas há maneiras de fazê-lo. Não é coincidência que a última vez que um clube da região Norte esteve na Elite foi ainda quando a Série A tinha mais de 20 clubes. Aos poucos, as mudanças da CBF, sob o pretexto de uma necessária organização, fizeram da pirâmide inteira uma grande Elite. Apenas 60 equipes do Brasil inteiro possuem calendário nacional estável e só 40 delas com garantia de jogos até o fim do ano. O Fluminense deveria ser um dos últimos a reclamar.

 

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