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"Pai" do Mangueirão: conservação evitaria colapso

"Se tivesse manutenção, não teria acontecido", diz Alcyr Meira, projetista do estádio.


O Campeonato Paraense de 2019 vai começar, neste final de semana, com seu principal estádio no estaleiro. Como parte do reboco da cobertura desabou sobre os assentos da arquibancada do Lado A no dia 7 de janeiro, o Mangueirão foi interditado e não receberá jogos, ao menos durante este mês. O Corpo de Bombeiros prepara um laudo técnico sobre a situação do Estádio Olímpico Edgar Proença.


Enquanto os clubes, em especial o Clube do Remo – cujo estádio próprio, o Baenão, segue inutilizável –, aguardam a definição sobre ainda ser ou não possível contar com o Mangueirão para o campeonato, o Não é só Futebol foi conversar com o arquiteto Alcyr Meira. Responsável pelos projetos de construção e reforma do estádio estadual, Meira mantém uma relação afetiva com sua obra: "O Mangueirão é um filho meu".


Construção


No final de 1966, Alcyr Meira recebeu chamado do então governador Alacid Nunes, que estava interessado em construir um estádio de futebol. Para definir as diretrizes do projeto, o arquiteto visitou vários estádios do país. O governador, inicialmente, queria uma praça esportiva com capacidade para 100 mil espectadores. Mas, com o projeto já em andamento, percebeu que seria grande demais. Um novo projeto foi feito então, para 60 mil pessoas.


Alcyr Meira em seu escritório: o Mangueirão é o projeto de uma vida, no qual ele ainda está disposto a trabalhar. (Guerreiro Neto/NesF)

A empresa Noronha Engenharia, que atuara nas construções da Ponte Rio-Niterói e do Maracanã, foi chamada para desenvolver a parte estrutural do Mangueirão. "Nós fizemos a estrutura em módulos. Cada módulo de construção tinha três módulos estruturais. E entre os módulos havia uma junta de dilatação, pra que não tivesse problema de fissuras", explica Meira. A divisão em módulos permitiu que o estádio fosse erguido por partes.


A construção começou ainda no governo Alacid Nunes, com o campo, os túneis e as gerais, setor popular que só foi concluído quando Fernando Guilhon era governador. O Mangueirão, àquela altura, não levava o nome do jornalista e radialista Edgar Proença. Chamava-se Alacid Nunes. E quando Nunes voltou ao cargo, no final dos anos 1970, decidiu continuar as obras. Terminou sua gestão com cinco módulos das arquibancadas concluídos.


"Quando chegou no sétimo módulo estrutural, mais ou menos, parou. Ficou muitos anos parado. E aí é quando o povo apelidou o estádio de banguela", lembra o arquiteto. Partidas marcantes de Remo, Paysandu e Tuna nas décadas de 1980 e 1990 tiveram como palco o Mangueirão banguela, com um vão aberto na estrutura de arquibancadas.


Assim era o Mangueirão em 1978. (Arquivo SEEL/via Mangueirão da Memória)

Reforma


Até que, no governo Almir Gabriel, Alcyr Meira foi novamente chamado. Dessa vez, para concluir os módulos, reformar o Mangueirão e transformá-lo em estádio olímpico, para receber outras modalidades esportivas além do futebol. "E assim foi feito. Nós modificamos o projeto. Eliminamos as gerais, o fosso – que separava as gerais do campo. As arquibancadas foram todas desenvolvidas integralmente e fomos fechando os módulos", conta.


Nos anos 2000, o Mangueirão chegou a ser cogitado para ser um dos estádios da Copa do Mundo de 2014. Atendia, inicialmente, a 82% das exigências da Fifa. Um novo projeto de reforma foi feito para que o estádio olímpico se adequasse aos padrões. Como Belém não foi escolhida uma das cidades-sede, o projeto foi para a gaveta.

A reforma previa construção de mais duas rampas nas extremidades longitudinais do estádio, para melhorar o fluxo de entrada e saída do público, além de bares e restaurantes panorâmicos, lojas, espaço para a imprensa e estacionamento. "O projeto está até hoje aqui. Se o governo do estado quiser melhorar o estádio, fazer um estádio primoroso, exemplar, o projeto está aqui no escritório. Mas eu diria que o mais importante agora é dar segurança ao estádio, é dar condição de uso", considera Meira.


Falta de manutenção


Alcyr Meira não inspecionou pessoalmente o Mangueirão após o desabamento do início do mês, mas, pelo que viu por fotografia, não lhe parece se tratar de problema estrutural. "O que caiu não foi nada de estrutura, foi o reboco. Simplesmente o problema é que a junta que fica entre um módulo e outro deve ter desgastado, o neoprene [elastômero] começa a ficar quebradiço e aí... Se tivesse manutenção periódica permanente, não teria acontecido isso jamais", acredita.


Pedaço da cobertura que caiu em um dos assentos: com o estádio vazio, por sorte, dano foi mínimo. (Thiago Gomes/Agência Pará)

"O problema que está acontecendo agora é simplesmente falta de manutenção. Essa é a base de tudo", reitera o arquiteto. "Porque nós temos lá um sistema sofisticado de vigas em concreto protendido [técnica para aumentar a resistência à tração] que deve ser, pelo menos de seis em seis meses, verificado como é que está. São cabos tensionados, que ficam dentro do concreto, e que com o uso, às vezes, afrouxam um pouquinho. Tem que constantemente verificar como está aquilo pra fazer as correções. E nunca mais se viu isso", alerta.


Embora não seja o caso agora, já que o concreto danificado é da cobertura, Meira lembra que, além da falta de manutenção, a longo prazo, a urina pode representar riscos à estrutura: "Nós tivemos sérios problemas estruturais porque o povo, em vez de urinar no sanitário, urinava nos pilares da circulação. A urina é um negócio terrível, é corrosiva. E quando ela atinge a ferragem, aí compromete a estabilidade".


Perguntado sobre o que acha das alegações de que o Mangueirão está velho e precisaria ser derrubado para a construção de um novo estádio, Meira cita as arenas romanas, que até hoje são utilizadas, não mais para a exibição de gladiadores, mas para eventos culturais. Se for bem cuidado, a vida útil do estádio ainda pode se prolongar por muitos clássicos entre Remo e Paysandu.


 

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