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Por que a volta do Carioca não é sobre o Carioca

Retorno apressado do estadual no Rio não é pelo torneio em si; é pelas consequências da volta.


O NesF tentou e segue tentando, nos últimos meses, não ser "coronacêntrico". E a pandemia parece ter chegado a um ponto, ao menos no debate público, em que há tendências à saturação da tragédia e, muito pior, à negação total dela. Enquanto boa parte do mundo se isola, a Terra segue girando, o que é inevitável. Talvez gire mais do que deveria, por assim dizer. E a volta do futebol no Brasil, no Rio de Janeiro especificamente, é mais um demonstrativo. A população do país não chega a 3% da população global, mas o Brasil tem mais de 12% dos diagnósticos de coronavírus do mundo, quase 11% das mortes e, na última semana, chegou a reportar quase 55 mil novos casos da doença em um único dia. Perdão pelo banho de realidade, caso você tenha vindo ao blog para se distrair do cenário atual. Porém, seria irresponsável diminuir o peso da catástrofe mundial que ocorre neste momento e que aflige o Brasil como poucos países. É o que está ocorrendo no Rio.


Em um país continental, é natural que haja diferenças no jeito como cada estado sofre na pandemia. Paraná e Minas Gerais, por exemplo, vivem situações aparentemente menos graves. No dia seguinte ao retorno do futebol, com um jogo fantasma entre Bangu e Flamengo, o Rio de Janeiro registrou o recorde de diagnósticos desde o início da pandemia: quase 6 mil. O estado está abrindo até salões de beleza, o que dá munição ao argumento de "por que não o futebol"? Sim, de fato o esporte não pode viver em uma redoma, protegido de tudo enquanto o resto do mundo se arrisca. No entanto, também fica aberto o caminho para a exploração do esporte como locomotiva de uma volta precipitada. Não adianta comparar com um shopping center. Quem fala de futebol, fala de futebol. Tem obrigação de relacioná-lo com a sociedade, sim, mas não de ser comentarista de shopping center. É possível (até necessário) ter ressalvas à volta do esporte, independente de outras áreas.


Sem transmissão, só quem estava no Maracanã viu o primeiro jogo no país após três meses. (Reprodução/Twitter CR Flamengo)

O futebol vai retornar e todos querem que retorne. A discussão aqui é a pressa. Não só como cenário amplo, mas também nos detalhes. Afinal, no caso do Campeonato Carioca, só dois dias se passaram entre a decisão da volta e o primeiro jogo. Dois dias. Por quê? As trapalhadas deste sábado (20), em que houve uma sequência de mudanças de planos, é um sintoma disso. Os elencos de alguns clubes, por exemplo, foram chamados às pressas e estão isolados, longe das famílias, apenas para levar até o fim um torneio esvaziado de importância. E mesmo para os times mais poderosos, que pensam em desafios maiores, há pouco a ganhar com tamanha pressa. Afinal, mesmo terminando o Carioca, não haverá calendário adiante para Vasco e Flamengo, por exemplo, enquanto outros locais não abrirem. Os rivais que mais pressionaram pela volta não querem só jogar sequência de amistosos um contra o outro. Ou seja, a volta do futebol não é exatamente sobre o futebol...


A preocupação com uma eventual disparidade para campeonatos futuros, com certos times voltando aos treinos e aos jogos antes de outros, é um dos temas precipitados pela volta do estadual no Rio de Janeiro, potencialmente antecipando outros retornos pelo país.

Sim, o poder de locomotiva do esporte está sendo utilizado no Brasil inteiro, no Rio de Janeiro mais ainda. E o Campeonato Carioca, até aqui, é o maquinista do trem. Não importa o torneio. Enfim, um atributo das locomotivas é que elas não têm, sozinhas, capacidade de cumprir o objetivo. A carga, os passageiros, tudo o que o trem leva, está no comboio. A locomotiva apenas dá a energia que permite que o comboio se movimente. É o que ocorre no Rio. Agora já foi, o futebol voltou. A barreira já foi quebrada. O Campeonato Catarinense, por exemplo, no início de junho, decidiu voltar em julho, um mês depois. Agora, já está novamente sob dúvida, como o Carioca também está. Mas um deles teve jogo. Iniciou o processo, pôs a roda para girar. Por isso a pressa: com jogadores concentrados, times engajados e a locomotiva em movimento, o comboio vai junto. Só resta torcer. Os cariocas dirigem o trem do futebol no país. Um acidente, agora, seria desastroso.

 

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