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Quando o Flamengo fez um Vas-Flu virar amistoso

Arrasando rivais, rubro-negro abriu série tricampeã enquanto Garrincha surgia para o país.


Para cada momento gigante no futebol, há inúmeros que poderiam sê-lo, mas ficaram no quase. Certamente não foi o caso do Campeonato Carioca de 1953, como um todo. Naquele ano, afinal, teve início a sequência de conquistas que levaria o Flamengo ao seu segundo tricampeonato estadual – em apenas duas décadas – e também a brilhante carreira profissional de Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, jogando pelo clube que defenderia por mais de dez anos, o Botafogo. Porém, para os outros dois grandes clubes cariocas, a lembrança é bem amarga. Por mais que Garrincha jogasse demais (terminou como vice-artilheiro da competição), quem lutava pelo título contra o Flamengo eram Vasco e Fluminense. Ponto a ponto, os dois rivais não deixavam o timaço rubro-negro desgarrar durante o decisivo terceiro turno; que começou em dezembro, mas transbordou para as primeiras semanas de 1954.


Após dois empates vascaínos consecutivos (diante de Botafogo e América) e uma derrota do tricolor para o Bangu, os três times chegaram na reta final do campeonato apenas dois pontos atrás do Flamengo – na época, uma vitória valia justamente dois, não três pontos. O cenário era simples: segurar o líder. Só que Vasco e Flamengo ainda teriam mais duas partidas para jogar, enquanto Fluminense e Bangu tinham apenas uma. A maior chance de tirar o título da Gávea estava, portanto, nas costas do time cruzmaltino, que vinha em baixa e esfacelando o Expresso da Vitória durante o segundo semestre de 1953. Ainda assim, naquele Carioca, Vasco e Flamengo haviam empatado os dois confrontos diretos por 3 a 3. O próximo jogo? É claro que era um Clássico dos Milhões. Empate ou vitória vascaína e a disputa seguia. Um triunfo rubro-negro sacramentava o título. Para não deixar dúvidas, em um Maracanã com mais de 130 mil torcedores, Mengão 4 a 1.


Quatro dias depois, em 14 de janeiro de 1954, há exatos 65 anos, Fluminense e Vasco entravam em campo já derrotados para um Clássico dos Gigantes que poderia ser decisivo, mas se tornou melancólico para as duas equipes. O Flu venceu por 3 a 2. Ninguém se importava. O feito era do Flamengo. Pelo título e por fazer um jogo grande entre dois de seus rivais se tornar pequeno. Irrelevante, na verdade. Não se engane: a partida entre tricolores e cruzmaltinos é apenas a efeméride; a história daquele dia, daquela semana e daquele campeonato é 100% rubro-negra.


Em pé: Garcia, Servílio, Pavão, Marinho, Dequinha e Jordan. Agachados: Joel, Rubens, Benítez, Índio e Esquerdinha. (Reprodução/Revista Sport Ilustrado)

Ok, 99%, vai. Tem aquele 1% botafoguense, simplesmente por conta de Garrincha. Entretanto, no terceiro turno, momento decisivo da competição, o Fogão não conquistou uma vitória sequer. Mané, em sua primeira competição profissional, era o artilheiro até a reta final, quando Jorge Benítez marcou cinco dos 11 gols do Flamengo (que venceu todos os cinco jogos), e tomou a dianteira. O atacante rubro-negro ultrapassou Garrincha por apenas dois gols – marcados justamente na partida decisiva diante do Vasco – e foi o artilheiro com 22 tentos. No confronto final do torneio, já com a taça mais do que garantida, o Mengão ainda tratou de ganhar do alvinegro, por 1 a 0, para coroar a campanha. O Botafogo do jovem Mané acabou sendo o lanterna do terceiro turno, mas àquela altura já havia gerado um fruto inestimável para a história do clube, da seleção e do futebol brasileiro. O Campeonato Carioca de 1953 sempre será lembrado pela revelação de Garrincha.


Mas se Mané apareceu do nada para se tornar gigante, o Flamengo quase precisou recomeçar do nada para se reerguer. Sétimo colocado no estadual de 1950, o clube vendera Zizinho para o Bangu e não levantava uma taça desde o tricampeonato carioca de 1944. Enquanto o rubro-negro sofria, o rival Vasco, com seu Expresso da Vitória, comemorava cinco estaduais entre 1945 e 1952, além do primeiro Campeonato Sul-Americano de Clubes, em 1948. Mas o novo presidente Gilberto Cardoso assumiu o Fla em 1951 e a reconstrução começou – culminando na contratação do técnico paraguaio Fleitas Solich, dois anos depois. Ele havia acabado de levar a seleção de seu país ao primeiro título da história: uma Copa América invicta, justo em cima do Brasil. O Feiticeiro ("El Brujo") também levaria ao estrelato, a partir de 1954, jogadores como Zagallo e Evaristo, que não faziam parte da rotação do histórico treinador Flávio Costa, seu antecessor.


A campanha do Fla no Carioca de 1953 teve 27 jogos, com 21 vitórias, 4 empates e 2 derrotas. O time-base era: Garcia; Marinho, Pavão; Dequinha, Servílio, Jordan; Joel, Benítez, Índio, Rubens, Esquerdinha. Téc.: Fleitas Solich.

Não foi um início fácil naquele Campeonato Carioca, entretanto, especialmente nos jogos maiores. O Flamengo terminou o primeiro turno na terceira colocação, apenas um ponto atrás de Botafogo e Fluminense, mas sem ganhar nenhum dos grandes clássicos. Empatou com o Vasco e perdeu para os outros dois rivais. Mesmo assim, além do artilheiro Benítez, já se destacavam os colegas de ataque Rubens, Esquerdinha, Índio e Joel. Na abertura do segundo turno, uma vitória de 7 a 2 sobre o Bangu, todos os quatro marcaram. E após empatar de novo com os cruzmaltinos e também com os alvinegros (1 a 1, gol de Garrincha), o time rubro-negro seguia sem bater nenhum dos maiores rivais. A reta decisiva do torneio se aproximava e na última rodada, após triunfo do Fogão sobre o Olaria, um Fla-Flu decidiria o líder do segundo turno. Finalmente, a tempo para pegar fogo no momento mais importante, o Flamengo venceu: 2 a 1.


Líder do segundo turno, líder na classificação geral e invicto há 13 jogos (seriam 18) no campeonato. O Fla que chegava para o turno decisivo do Campeonato Carioca de 1953 era completamente diferente daquele que iniciara a competição. Enfim pronta para passar o trator, a equipe sofreu apenas 2 gols, marcando 11. Para aquele clássico entre Vasco e Fluminense, de exatos 65 anos atrás, se tornar um jogo que não valia nada, o caminho do Flamengo foi uniforme: vitórias. Foram cinco seguidas. O time terminou o campeonato com o melhor ataque (77 gols) e a melhor defesa (27 gols).


Após bater o Vasco por 4 a 1 e voltar a levantar a taça de campeão estadual após quase dez anos, o clube mais querido do Brasil iniciou um período importante de glórias. Em 1954 e 1955, vieram mais dois Cariocas, completando o segundo tricampeonato consecutivo da história rubro-negra. Também veio uma Taça dos Campeões Estaduais, diante do Santos, em 1956. O desempenho daquele Flamengo era tão impressionante que seu treinador foi para o Real Madrid – e os ajudou a conquistar o pentacampeonato europeu seguido. É isso mesmo. Fleitas Solich só não ficou por ter perdido o Espanhol para o Barcelona, nos critérios de desempate, mas deixou os merengues na semifinal da Copa Europeia (atual Liga dos Campeões). Quando voltou, ainda venceu um Torneio Rio-São Paulo com o rubro-negro no início da década seguinte, em 1961, ampliando seu legado – que, convenhamos, estava mais do que estabelecido. Desde 1953.

 

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