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Relembrando os 96: a história de Hillsborough

Maior tragédia do futebol inglês faz 30 anos, entre homenagens e busca incansável por justiça.


No último domingo (14), antes da partida entre Liverpool e Chelsea, extremamente importante para as definições no topo de tabela do Campeonato Inglês, foi respeitado um minuto inteiro de absoluto silêncio em Anfield, o estádio dos vermelhos. Além disso, inúmeras homenagens foram prestadas. Quem acompanha o futebol inglês sabe que, anualmente, este é o período em que as 96 vítimas da tragédia de Hillsborough são lembradas. Em 2019, no entanto, é mais do que isso. A catástrofe faz 30 anos em meio, ainda, à busca por justiça. No início deste mês de abril, um dos policiais que teve participação decisiva no ocorrido foi à júri popular no Reino Unido. Não houve veredito e ele deve ser julgado novamente. Um dos diretores responsáveis pela segurança do estádio no dia fatídico, porém, foi condenado. Após tantos anos, a repercussão do desastre tomou vida própria e muitos nem sabem exatamente o que aconteceu naquela tarde em Sheffield.


Era semifinal de Copa da Inglaterra. Jogo único. O tradicional Liverpool encarava um Nottingham Forest em ótima fase. Campo neutro. O palco era o estádio do Sheffield Wednesday: Hillsborough. Hoje, para o mundo, infelizmente mais conhecido pelo que aconteceu naquele dia do que pelas partidas que recebe. O Wednesday, atualmente na Segunda Divisão, manda seus jogos no mesmo lugar que foi túmulo temporário de 96 pessoas. Elas morreram, em sua maioria, pisoteadas e asfixiadas pelo fluxo contínuo de outras pessoas, por sua vez empurradas por tantas outras. E assim por diante. Um atropelamento humano, normalmente, ocorre de forma cruel, mas não deliberada. A massa de pessoas deixa de se comportar como a soma dos seus indivíduos, vira algo distinto, quase fluido. Ninguém se mexe porque quer, mas porque não tem escolha. E foi assim que aquele 15 de abril de 1989, há exatos 30 anos, viu uma das maiores tragédias do futebol.


O memorial às 96 vítimas, em Liverpool. (Ben Sutherland/Creative Commons)

A tensão era palpável desde antes do jogo. E a operação de segurança, sem dúvida, delicadíssima. A torcida do Liverpool, muito maior que a do Forest, ficaria com uma área menor – por controversa decisão logística. Uma vaga na final da Copa era, naquela época, muito maior do que é hoje. Em especial com os clubes ingleses banidos de competições europeias exatamente por conta de supostos torcedores dos Reds. Em 1985, na final da Liga dos Campeões contra a Juventus, assassinos vestindo vermelho causaram a morte de 39 pessoas, no estádio Heysel, em Bruxelas. O hooliganismo era um problema sério na Inglaterra, mas não foi o protagonista naquela tarde em Sheffield. Pelo contrário. Muitas vidas foram salvas por atitudes dos próprios torcedores. Havia, no entanto, poucas catracas para a entrada no setor do Liverpool. O jogo começava e a aglomeração era grande. Foi quando o chefe de polícia David Duckenfield abriu os portões.


Certamente pensando em evitar um princípio de esmagamento fora do estádio, Duckenfield tomou a decisão errada. Dentro, obviamente, era muito pior. Não era ameaça, era certeza. Ali, mortes foram decretadas. O espaço era menor e cercado por alambrados de ferro. Além disso, não houve qualquer orientação aos torcedores, que não sabiam o quão lotada a área central estava. Foi uma sucessão de equívocos. Talvez mesmo com Duckenfield abrindo os portões de fora, a tragédia fosse menor se a lotação da parte central tivesse sido vista. Os torcedores poderiam, no mínimo, ser direcionados às áreas laterais. Quase todos tinham ingresso. Não houve invasão ou mesmo desordem grave, hoje se sabe – embora na época, as vítimas, alvos fáceis, tenham sido culpadas publicamente apenas por irem a um estádio de futebol ver dois dos melhores times do país. O Liverpool de Kenny Dalglish e o Forest de Brian Clough eram espetaculares. Mas não teve espetáculo.


A maioria dos torcedores sequer viu Beardsley, do Liverpool, acertar a trave do Forest pouco antes do jogo ser paralisado. Estavam tentando sobreviver. Não que importe, mas, quando a partida foi de fato realizada, em Manchester, três semanas depois, o Liverpool venceu por 3 a 1, a caminho do título sobre o rival Everton.

Enquanto o jogo começava, a catástrofe ocorria. A sequência de erros também seguiu. Pessoas já morriam esmagadas no alambrado e a "segurança" tentava conter o ímpeto daqueles que lutavam pela vida, buscando invadir o campo para sobreviver. Eles foram empurrados de volta para dentro. Para a morte. Alguns poucos conseguiram escalar até a área superior, ajudados por outros torcedores. Só após seis minutos de jogo o óbvio foi percebido. Paralisou-se a partida e pequenas fendas no alambrado foram abertas. Quem entrou vivo no campo teve sorte. Placas de publicidade viraram macas. Nelas, os que não foram tão afortunados. Além dos 96 mortos, quase 800 feridos. Famílias choravam e a polícia local coletava testemunhos que, mais tarde, seriam adulterados, como apurado em 2012 – o que talvez seja pior que os erros originais. Até em quase 40 crianças mortas foram feitas medições de álcool no sangue, em busca desesperada para desviar a culpa.


Se o futebol inglês é muito diferente hoje do que era há 30 anos, majoritariamente para melhor, é por conta do relatório Taylor, investigação sobre Hillsborough que identificou os problemas mais graves e não caiu no argumento fácil de selvageria. O próprio estádio já havia passado por ocorrido semelhante, em 1981, sem a mesma gravidade. Em 1988, um ano antes da tragédia, os dois times já tinham jogado tensa semifinal da Copa em Hillsborough. Demorou para a lição ser aprendida. Não há mais alambrados na Inglaterra, entre outras mudanças, mas a busca por justiça continua. Graham Mackrell, diretor de segurança do Sheffield Wednesday na época e responsável pela logística daquele jogo – que tinha apenas sete catracas para mais de 10 mil torcedores do Liverpool – foi condenado. David Duckenfield deve passar por novo julgamento. Os erros deles foram, também, nossos. Erros do futebol e da sociedade. Aprendamos com eles. Se não por nós, pelos 96.

 

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