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Uma semana para lembrar da força das torcidas

Por todo o mundo, o futebol foi bombardeado por exemplos do poder que a arquibancada tem.


A última semana está sendo incrível para os amantes de futebol. Também, pudera. É um período decisivo e muitas vezes mágico do ano, para quem acompanha o ludopédio do mundo inteiro. O afunilamento da Liga dos Campeões e da Liga Europa, sempre emocionantes e com grandes jogos, a rodada final da fase de grupos da Libertadores, o início do Campeonato Brasileiro e as partidas que decidem títulos nacionais por toda a Europa. Isso só para falar do que toma maior espaço na mídia. O mata-mata do Campeonato Mexicano, por exemplo, sempre divertido, também começou, com jogo duro entre o sétimo Pachuca e o vice-líder Tigres. O apoio que os Jacarés receberam, em casa, fez a diferença para segurar o 1 a 1 contra um time mais qualificado. E havia sido assim na temporada toda. O Pachuca chegou às quartas após vencer 100% dos jogos no estádio Hidalgo. É difícil sair desta semana sem destacar e admirar a força de uma torcida.


Na verdade, o que se viu nos últimos dias, pelo mundo, vai até mais longe do que a torcida. O clima de um jogo, a atmosfera no estádio, questões que vão muito além de técnica, tática e até mesmo do improviso de dentro das quatro linhas, o peso e o alívio emocional, a catarse coletiva que o futebol às vezes proporciona... E não necessariamente ao time mandante, dependendo do momento. Mas é inevitável pensar que a torcida do Liverpool teve papel preponderante na vitória por 4 a 0 diante do Barcelona, que garantiu o time inglês na final da Liga dos Campeões pelo segundo ano consecutivo. Da mesma forma, o baque sofrido pelo torcedor em Amsterdã, quando o Ajax vencia o Tottenham e o brasileiro Lucas Moura marcou dois gols em quatro minutos, transfigurou um princípio de euforia histórica para agonia e exasperação. O que sai da arquibancada vai ao campo, o que sai do campo reverbera na arquibancada – e pode voltar ao campo.


Wijnaldum saiu do banco para comemorar dois gols: daqui a alguns anos, será impossível falar do milagre de Anfield sem falar do espetáculo da torcida do Liverpool. (Reprodução/Twitter Liverpool FC)

Os exemplos recorrentes disso na última semana, em que o futebol mundial esfregou a importância da torcida na cara de todos, começaram na quarta-feira (1°). No Castelão, os torcedores do Fortaleza fizeram uma grande festa para receber o Tricolor do Pici de volta à Série A, em casa pela primeira vez em um jogo da elite após 13 anos. No primeiro ataque, gol. Foi de Edinho, em bela finalização, não foi do torcedor. Nada aqui busca sugerir que a responsabilidade por acertar ou errar, por vencer ou perder, está nas arquibancadas. No caso do Fortaleza, por exemplo, poderia se escrever inúmeros textos sobre a forma como o time de Rogério Ceni jogou, suas variações e as dificuldades impostas pelo Athletico durante a partida. Mas nem só isso explica o jogo, como nem só a potência que vem da arquibancada o explica. Faltando 18 minutos, o técnico colocou Wellington Paulista, novo xodó aclamado pela torcida. Faltando 15 minutos, gol dele; 2 a 1 e vitória.


Na última quinta-feira (2), o Eintracht Frankfurt retornou a uma semifinal europeia pela primeira vez desde 1980. A festa dos alemães também foi de arrepiar, mas o Chelsea jogou muito melhor do início ao fim. Mesmo assim, empurrado por torcida que quase não parou de cantar e apoiar, a Águia abriu o placar e ainda deu um sufoco nos ingleses na reta final. O placar de 1 a 1 manteve a equipe viva para o confronto de volta, nesta quinta (9). Um roteiro muito parecido justamente com o que viveu o Pachuca do treinador Martín Palermo (aquele mesmo) nesta quarta-feira (8). É difícil não perceber que até mesmo no jogão do fim de semana, entre Grêmio e Fluminense, o cochilo e o abatimento do time da casa se refletiu na arquibancada da Arena, que costuma ser muito mais pulsante do que foi no domingo (5). O silêncio e o temor ao fim do primeiro tempo, após dois gols relâmpago do time carioca, fizeram parte de um clima em que o Flu passou a mandar no jogo.


Também houve pelo menos dois tristes casos de racismo no futebol nesta semana. O primeiro foi justamente de torcedor do Grêmio, direcionado ao atacante colombiano Yony González, do Fluminense. O segundo foi de um torcedor do Peñarol, direcionado ao setor do estádio Campeón del Siglo em que estava a torcida do Flamengo.

A vitória de 1 a 0 do Manchester City sobre o Leicester, na segunda-feira (6), em jogo tenso, mas com apoio incondicional do torcedor, também viu a força que vem de fora das quatro linhas, tal como o empate tardio do River Plate diante do Internacional. Pela Libertadores, na terça (7), tanto argentinos quanto brasileiros já entraram em campo classificados. Mesmo assim, após tomar a virada, a torcida millonaria se fez reconhecer, empurrando o time e sem arredar pé do Monumental até sair o gol de Lucas Pratto, nos acréscimos, para decretar o 2 a 2. Da mesma maneira, a apatia irreconhecível da torcida do Peñarol – com exceção exatamente do tipo errado de anti-apatia, os ridículos atos racistas de um carbonero – contribuiu para uma postura indolente do time em campo, na partida que terminou 0 a 0 contra o Flamengo. Pouco apoio na arquibancada tabelou com pouca pressão e pouca urgência no campo, resultando na eliminação dos uruguaios.


Os exemplos desta semana servem para abrir os olhos de quem vive, respira e analisa o futebol. O que ocorre dentro das quatro linhas possui lógica, estrutura e planejamento, porém não é robótico. Possui também improviso, emoção e é integrado por circunstâncias que vão muito além do 4-4-2. E isso não parte apenas dos jogadores. O erro de cálculo no carrinho que gera expulsão, a falha do goleiro, a finalização facílima que vai para fora... É quase um reflexo olhar só para o que ocorre dentro do campo. Afinal, é o principal mesmo. Mas é fácil dizer que não significam nada menos de 7 mil presentes em um Botafogo 3, Bahia 2, até o jogo ocorrer de portões fechados por alguma punição. Aí todos veem a diferença. É claro que não é em todo o jogo que a torcida influencia diretamente o que ocorre no relvado. Só não pode nunca ser esquecido o poder que ela tem para fazer isso. O futebol é sempre capaz, como escreveu Tostão, de oferecer conquistas que vêm da alma.

 

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