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Vai começar o futebol: um choro de 1919 para 2019

Uma tabela com a melodia de Pixinguinha nos cem anos da primeira grande taça do Brasil.


O garoto Alfredo chegou a flertar com a pelota naquele início de século, mas "fracassou em todas as tentativas que fez no futebol", contou, nos anos 1950, a Revista Música Popular. Era mesmo na música que ele viria a jogar em muitas posições – instrumentista, compositor, arranjador e regente – e com a genialidade de craque.


Criado no bairro carioca do Catumbi, Alfredo cresceu entre saraus e músicos que ocupavam a casa de seu pai. Aos 11 anos, começou a tocar cavaquinho. Depois passou para a flauta. Em 1914, aos 16, registrou pela primeira vez uma composição sua, assinando "Alfredo da Rocha Vianna (Pizidin)". O apelido teve variações até alcançar a forma final. Pixinguinha.


Pixinguinha sorri ao lado de João da Bahiana. (Pedro de Moraes/Acervo Pixinguinha-IMS)

Obras-primas como "Carinhoso", "Rosa" e "Lamentos" estão eternizadas, da mesma forma que o gol de Pelé na final de 1958 contra a Suécia – com direito a chapéu no zagueiro e arremate com a bola no ar – ou os desconcertantes dribles de Garrincha. Mas este texto é sobre outra música de Pixinguinha; e outro jogador.


Há cem anos, a seleção brasileira conquistava seu primeiro título relevante. Para o triunfo no Campeonato Sul-Americano, atual Copa América, desbancou o bicampeão Uruguai, no recém-inaugurado Estádio das Laranjeiras. A partida foi dia 29 de maio de 1919, uma quinta-feira.


Recorte do Correio da Manhã no dia seguinte ao título. (Reprodução)

No domingo, Brasil e Uruguai haviam empatado em 2 a 2. O jogo de desempate, quatro dias depois, terminou em 0 a 0 no tempo normal. Prorrogação. Mais meia hora de peleja e nada de gol. Foi preciso uma segunda prorrogação para que a bola estufasse as redes. O jornal Correio da Manhã, na edição de 30 de maio, registrou assim o gol brasileiro:


Ha logo uma avançada de Friedenreich que passa a Arnaldo; este exige um corner (...) Naguil. Batido o corner, a bola é desviada do goal uruguayo para voltar às imediações delle por intermedio de Néco. Este escapa pela extrema-direita, fecha e shoota a goal. Saporiti defende e a bola volta a Friedenreich durante grande confusão à porta das redes uruguayas. Friedenreich desvia-se dos adversarios e com forte shoot adquire o ponto que garantiu aos brasileiros a conquista do campeonato sul-americano de 1919. Os applausos do publico assumiram proporções nunca vistas.

Arthur Friedenreich, o autor do gol, dali em diante seria "El Tigre", o primeiro grande ídolo do futebol nacional. Aquela conquista de 1919 tornou-se um marco para popularização do esporte no país. O mesmo Correio da Manhã de 30 de maio narrou a euforia pós-jogo:


O povo, após o encontro, que durou duas horas e meia, demonstrou o inteiro jubilo de que se achava possuido, carregando os vencedores e erguendo-lhes manifestações de enthusiasmo que atingiram à loucura. Essas manifestações constituiram um empolgante espectaculo. Causava "frisson" ver-se a formidavel assistencia mover-se no terreno em que momentos antes fôra travada a luta renhida, entregando-se a demonstrações que dão eloquentemente a perceber a conquista que o football fez definitivamente no coração popular.

Brasileiros e uruguaios disputam a bola; naquele jogo, o Brasil foi campeão com: Marcos de Mendonça; Píndaro, Bianco; Sérgio Pires, Amílcar Barbuy, Fortes; Millon, Neco, Friedenreich, Heitor, Arnaldo. (Reprodução/Arquivo Nacional)

O futebol no Brasil, contudo, ainda era elitista e racista. Neto de alemães e africanos, o craque Friedenreich tinha olhos claros e cabelo pixaim. Antes dos jogos, ele esticava o cabelo, tentando amenizar os traços de negritude. O único jogador de pele negra daquele Sul-americano foi o uruguaio Isabelino Gradín.


Pois no país afeito a teses e políticas de branqueamento, Pixinguinha, na época com 22 anos, tratou de enegrecer e embelezar a conquista de 1919 com sua arte. Ao que consta, foi em homenagem à vitória contra o Uruguai que o mestre da flauta – e mais tarde do saxofone – compôs, naquele ano, o clássico chorinho "Um a zero".


A primeira gravação da música só viria a ocorrer passados 27 anos do feito de Friedenreich e companhia, em 1946, com Pixinguinha no saxofone e seu parceiro Benedito Lacerda na flauta.



A pesquisadora Virgínia Bessa, em sua dissertação de mestrado em História, considera que "Um a zero" traz um descritivismo sonoro, por imitar sons da partida de futebol. Entre as variações rítmicas, há por vezes um caráter ruidoso que expressa a alegria do torcedor, assim como a repetição de fragmento melódico deslocado que sugere o movimento do drible.


Por longos anos, a música foi somente instrumental. Até que, em 1993, 74 anos depois da melodia de Pixinguinha ganhar vida, o guitarrista, compositor e arranjador mineiro Nelson Angelo deu a ela uma letra. "É a bola, é a bola, é a bola / É a bola e o gol! / Numa jogada emocionante / O nosso time venceu por um a zero / E a torcida vibrou."



De 1919 para cá, a torcida brasileira vibrou outras tantas vezes. Vieram muitas glórias e alguns vexames. O choro nascido dos pés de Friedenreich e do sopro de Pixinguinha ficou. Para nos lembrar que nem tudo é 7 a 1. Mesmo num ano como este, de telegrafado gol contra, temos o que comemorar. Feliz 2019!


 

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